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Pau da bandeira de São José é festejado em Bodocó
Claudia Parente
Jornalista,
colunista do Jornal do Commercio.
O santo que se transformou em símbolo da esperança nordestina em invernos
melhores começou a receber homenagens desde a última terça-feira, nesta
cidade, onde se realiza a mais tradicional festa de padroeiro do Sertão do
Araripe. Fazer chover, no entanto, não é único atributo de São José, o
personagem em questão. A ele, em Bodocó, também é creditado o dom de
encontrar maridos perfeitos para moças casadouras que ainda esperam pelo
príncipe encantado. Na batalha pelo par ideal, elas se atiram com unhas e
dentes para tocar no pau de São José, que não é nada mais, nada menos, que
um enorme mastro usado para colocar a bandeira do santo. Essa atitude
surpreendente de mulheres de todas as idades dá o toque profano a uma
festa religiosa que teve início há 77 anos.
São José foi adotado como padroeiro de Bodocó na década de 20. Embora não
haja nenhuma informação concreta sobre o motivo da escolha, acredita-se no
óbvio. Como o santo sempre esteve associado à época em que as chuvas devem
cair com mais intensidade no Sertão, já que a sua data festiva é 19 de
março, tê-lo como padroeiro significava a garantia de um inverno bom. "A
esperança do sertanejo acaba em março. Se não chove até este mês, fica
difícil garantir uma boa colheita", diz o padre Domingos Pedro da Silva,
responsável pela paróquia de Bodocó, explicando que a fama de fazer chover
do santo foi apregoada pelo povo e é resultado da coincidência das datas.
"Já que São José era homenageado em março, adquiriu-se o hábito de
recorrer a ele quando havia ameaça de estiagem", completa. A opinião é
reforçada pelo secretário de Cultura da cidade, João Humberto Aires
Pedrosa. "A gente vive em uma região muito seca. Acredito que esse fator
foi definitivo na escolha do padroeiro", acrescenta.
O pau - forma como o povo do Sertão chama comumente o mastro onde é
colocada a bandeira de um santo -, é doado desde a primeira vez que a
festa foi realizada, pela família Siqueira Amorim, composta, em sua
maioria, por carpinteiros e conhecida na cidade como "Puluca". Foi seu
Manoel "Puluca", que resolveu procurar a maior árvore da região e levar
como oferenda para São José, num ritual hoje encabeçado por seu neto
Antônio Siqueira Amorim, 71. "O povo não deixa mais a gente parar", diz,
confirmando a intenção da família de manter a tradição enquanto houver um
"Puluca" vivo em Bodocó. Dessa época para cá, a preocupação sempre foi
conseguir, a cada ano, um pau maior e mais forte, para a alegria das
mulheres que participam da festa. Depois de cortada a árvore, os galhos
são retirados e a madeira é pintada de branco. Só então os homens se
aproximam para medir, em palmos, o tamanho do pau - o desse ano tem o
equivalente a 18 metros de comprimento.
O estandarte do santo só é colocado no mastro na cidade, mais exatamente
na Praça José Gomes de Sá, na frente da casa que pertenceu a Rita Bezerra
Alves, doadora da bandeira desde 1938. A filha de dona Rita, a pedagoga
Lisléia Alves Saraiva, assumiu o lugar depois que a mãe faleceu e vem do
Recife todos os anos para repetir o ritual. A cada ano, o estandarte
ostenta um desenho diferente. "Apesar da modernidade, a festa de São José
em Bodocó ainda conserva a mesma magia de antigamente", afirma.
A esperada procissão começa por volta das 16h, quando um grupo de devotos
dispostos (todos homens) suspende o madeiro e sai da Fazenda Carambola,
propriedade dos "Puluca", até o centro de Bodocó, num percurso de 4km, que
dura quase duas horas. A imagem gloriosa de São José segue, sob o som de
pífanos e da música "Bandeira do Divino", entoada por vozes femininas. À
sua frente, uns grupos de cavaleiros, motoqueiros e ciclistas abrem
caminho para o padroeiro. A eclética procissão já conta com cerca de três
mil pessoas a essas alturas.
Somente na entrada da cidade as mulheres se aproximam dispostas a pegar no
pau de São José. As mais jovens e mais tímidas apenas tocam no objeto
milagroso e se afastam. As mais velhas, as mais afoitas e as mais
fervorosas dão um jeito de conseguir se infiltrar entre os homens e
carregar o disputado madeiro até o seu destino final. Embora poucas
admitam, o sorriso brejeiro por trás da devoção quase sempre revela o
desejo que alimentam. "Estou pegando nesse pau pela primeira vez", jura a
comerciária Irene Pereira de Andrade, que não quis revelar a idade.
"Espero que dê certo", torce, enquanto que se aproxima quase que sem
jeito. "O ano passado peguei no pau, mas não me apareceu nada que
prestasse. Quero ver se agora a história muda", diz a espevitada Francisca
Gomes da Silva, 20 anos. As gêmeas Maria Aparecida e Francisca Alves da
Silva, 16 anos, apesar da pouca idade, já têm histórias para contar. "O
ano passado eu peguei no pau e casei. Ela não pegou e ainda está aí
sobrando", diz Aparecida, que mesmo assim preferiu renovar os pedidos
junto ao santo. "É para ver se as coisas melhoram lá em casa", diz.
Em busca do tão desejado marido vale tudo. "Tem mulher que pega na parte
grossa, outras que preferem a fina. Umas pegam com uma mão, outras com
duas. É uma loucura", conta a professora Kátia Saraiva, que mora em
Petrolina mas vem todo ano a Bodocó para reforçar o pedido. "Parece que
minha fé é pequena, pois faz dez anos que pego nesse pau e ainda não
arrumei nada", confessa, lembrando que há uns anos atrás, ela e mais duas
amigas resolveram não tocar no mastro para ver se obtinham resultados mais
satisfatórios. "Na hora que o pau já estava sendo levantado na praça, nós
não resistimos e quebramos a promessa".
Carregado por homens e mulheres, o pau de São José chega ao seu destino
final, defronte da Igreja Matriz, que também leva o nome do santo. Ali
permanecerá até 1º de maio, quando se comemora o dia de São José
Carpinteiro. Depois das festividades, o pau, que antes era doado a pessoas
pobres da região, é levado para o Museu Dona Luíza Siqueira, construído há
cinco anos na Fazenda Carambola para guardar a memória da festa. As
circunstâncias, no entanto, não indicam para um concorrido depósito de
paus de São José no local. A escassez de árvores de grande porte na região
obrigou a família "Puluca", este ano, a pedir autorização ao Ibama para
extrair a madeira na Floresta Nacional do Araripe. Segundo informações da
família, no próximo ano a árvore deverá ser doada pelos organizadores da
festa de Santo Antônio, em Barbalha, Ceará. Talvez, assim quem sabe,
juntando o pau de São José com o de Santo Antônio, o sonho do matrimônio
fique mais próximo para as moças solteiras de Bodocó. |