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O turismo no espaço rural da Chapada Diamantina

Claudia Neu e Giovanni Seabra
O turismo no espaço rural da Chapada Diamantina

* Claudia Neu - Geógrafa, mestranda em Geologia Sedimentar, consultora em Planejamento ambiental. neuseabra@yahoo.com.br

** Giovanni Seabra - Professor da UFPB, é Graduado e Mestre em Geografia, Doutor em Geografia Física e Pós-Doutor em Geologia Sedimentar e Ambiental. gioseabra@yahoo.com.br

(Artigo publicado nos anais do CITURDES ? IV Congresso Internacional sobre Turismo Rural e Desenvolvimento Sustentável, Joinville, 2004, pgs. 106-109).

Resumo

O presente trabalho pretende analisar a inserção do ecoturismo e do turismo rural em áreas protegidas e seu entorno, considerando a preservação da paisagem natural e do patrimônio cultural no Parque Nacional da Chapada Diamantina. Como objeto de análise, são priorizados especialmente as atividades agrícolas e não agrícolas no ambiente rural da Chapada Diamantina, desenvolvidas pelas comunidades tradicionais de garimpeiros manuais, no Povoado de Igatu; agricultores de base familiar, no Vale do Pati; e os agricultores de roçados no Piemonte da Chapada Diamantina.

Palavras-chave:

Unidades de Conservação / Patrimônio Natural e Cultural / Comunidades Tradicionais

1. Introdução

Compreende-se como turismo rural aquele que se passa em áreas não urbanas. Nessa modalidade de turismo o entretenimento do turista envolve tanto as chamadas atividades agrícolas, quanto as atividades inerentes ao meio natural. Nesse caso, conforme Rodrigues (2000), propõe-se visitas de pequenos grupos a áreas naturais protegidas e a espaços ditos rurais, a essa mesclagem de atividades turísticas não urbanas a autora denomina turismo eco-rural.
A Chapada Diamantina atravessa a Região Central do Estado da Bahia, com direção norte-sul, interligando-se com a Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Todo o conjunto é denominado Distrito Diamantino.

Tradicional área de exploração diamantífera, a região vivenciou ciclos econômicos diferenciados entre si, tendo um ponto em comum - o extrativismo dos recursos naturais (Seabra, 1991). As riquezas exploradas foram representadas ciclicamente pelo diamante, o carbonato, o cristal de rocha, as florestas, a cultura cafeeira e a pecuária extensiva. Esta última atividade é atualmente a mais representativa para a economia regional, juntamente com a agricultura irrigada e o turismo rural e ecológico.

Para preservação do patrimônio natural, em 1985 foi criado na região o Parque Nacional da Chapada Diamantina. Os Parques Nacionais são unidades de conservação criadas por Decreto Federal com a finalidade de conciliar a preservação dos atributos excepcionais da natureza com a sua utilização para fins educacionais, recreativos e científicos.
Existem atualmente 56 parques nacionais no Brasil, sendo que em sua maioria não contam com infra-estrutura necessária à preservação dos ecossistemas e ao acolhimento, acompanhamento e fiscalização dos visitantes.

Consequentemente, essas unidades de conservação de preservação integral convivem com problemas diversos, como a não desapropriação e conflitos de terras, incêndios criminosos, exploração de madeiras e minerais, a caça predatória , além do turismo mal conduzido e sem sustentabilidade sócio-econômica e ambiental.
O trabalho desenvolveu-se na Região Central da Bahia, iniciando-se no Piemonte da Chapada Diamantina, com objetivo de encontrar e mapear cavernas no meio rural. Ao percorrer e classificar diferentes tipos de garimpos nas serras da chapada, os autores, ao longo dos anos, acompanharam os processos de turistificação no Parque Nacional da Chapada Diamantina, notadamente na Serra do Sincorá, onde está situado o Parque Nacional.

2. Localização e caracterização geral da área

A Chapada Diamantina constitui um grande conjunto de terras elevadas e de topo aplainado que se alonga desde a região central da Bahia até o norte de Minas Gerais, onde é denominada Serra do Espinhaço. Na Bahia, o sistema de serras tem a forma de um gigantesco Y, com origem nos municípios de Rio de Contas e Barra de Estiva, estendendo-se para o norte até os municípios de Palmeiras e Lençóis, onde se bifurca no sentido oeste para o Município de Xique-Xique e no sentido leste para o município de Morro do Chapéu (Seabra, 1991).

O Parque Nacional da Chapada Diamantina situa-se na Microrregião Chapada Diamantina Meridional que abrange 31 municípios; destes, cinco são parcialmente ocupados pela unidade de conservação: Lençóis, Palmeiras, Andaraí, Mucugê e Ibicoara. A área do Parque ocupa 152.000 hectares e está situado entre as coordenadas 12º25? e 13º20? de latitude sul e 41º05? e 41º35? de longitude oeste.

O contorno da área do Parque Nacional perfaz uma poligonal fechada cujo traçado é iniciado na BR-242, que se estende à oeste até o povoado de São João, de onde segue para o sul até o povoado de Cascavel; a partir desse ponto, contorna a Serra do Sincorá tangenciando a cidade de Mucugê; então segue pela estrada velha até Igatu, de onde o traçado prossegue até Andaraí seguindo a estrada de rodagem; de Andaraí a linha limítrofe acompanha o rio Santo Antônio até o povoado de Remanso; daí sobe pelo rio São José até a cidade de Lençóis; de Lençóis retorna à BR-242.

A Chapada Diamantina é parte integrante da borda sedimentar da Dorsal Cristalina do Leste do Brasil. Camadas de arenitos, superpostas com quartzitos e conglomerados foram erguidas mediante efeitos tectônicos, resultando no relevo fortemente ondulado. Sob espessos lajedos, em meio a pacotes de cascalhos, são encontradas as jazidas diamantíferas.

As altitudes são elevadas e na Serra do Sincorá o ponto culminante atinge 1.560 metros. Nos pacotes sedimentares da chapada instalou-se, por 150 anos, o garimpo de diamantes. Essa atividade desenvolveu-se ao mesmo tempo em que a agricultura de base familiar no fundo dos vales que atingem 500 metros de profundidade.

No Piemonte da Chapada evidencia-se um espesso bloco calcário, onde se formaram inúmeras cavernas de tamanhos e belezas colossais. Nessa região suavemente ondulada, florestas úmidas foram substituídas por áreas de pastagens, ampliando as fronteiras da pecuária extensiva.
O clima é quente e úmido, e a estação seca é de outono-inverno; com variações climáticas entre 18 - 24° C. Alguns rios destacam-se por sua importância, quanto ao volume d?água, como exemplo os rios Paraguaçu, Santo Antônio, e seus afluentes. O desmatamento na região contribuiu para o aumento dos períodos secos, ressecando os rios, degradando os solos e afetando significativamente a economia baseada na criação de animais.

Diante da retração econômica regional, o turismo surge como atividade complementar no meio rural, tendo como principais atrações o relevo cárstico e as inúmeras cavernas distribuídas no piemonte, como as grutas do Poço Encantado, Paixão e Marota, que foram exploradas, mapeadas e topografadas durante os trabalhos.

3. Procedimentos metodológicos

Metodologicamente estão presentes na pesquisa dois procedimentos: o método analítico e o método sintético (Seabra, 2001).
O método analítico consiste na decomposição do objeto de estudo nas suas partes, para que seus componentes individuais possam ser melhor identificados e compreendidos.
O método sintético implica na integração dos componentes sistêmicos e, dentre estes, a sociedade humana; isso porque esse trabalho considera a inexistência da natureza intocável, visto que a presença do homem está em todos os lugares, desde as mais altas montanhas até as maiores profundezas oceânicas.

O uso dos dois métodos em lugar de se excluírem têm o sentido de complementaridade, uma vez que a abordagem metodológica pretende integrar análise e síntese na compreensão da dinâmica do todo.

Os parques nacionais são criados mediante cortes na paisagem natural com o objetivo maior de preservar os ecossistemas, conciliando esses últimos com atividades científicas, turísticas e educacionais. Atualmente, a idéia de conservação da natureza é concebida juntamente com o manejo racional de seus recursos de maneira a perpetuá-los. Essa concepção está embutida na idéia de desenvolvimento sustentado, ou seja, o modelo que preconiza a máxima utilização dos recursos com um mínimo de impactos sobre os ecossistemas e especial atenção para com as futuras gerações.

Conhecendo-se as partes componentes das unidades ecossistêmicas através de procedimentos analíticos, pode-se reconhecer e identificar as conexões existentes entre os diversos elementos do conjunto, bem como os fluxos de matéria e energia. O conhecimento dessas ligações, mediante a observação dos componentes em vários ângulos, conduzirá à síntese, ou seja; a integração sistêmica de todos os elementos. O método proposto, ao pretender a integração e a generalização dos elementos obtidos pela análise, denomina-se analítico-sintético.

Compreende-se, portanto, que o procedimento empregado na análise ambiental é multitemático, cuja característica é gerar produtos analíticos em uma primeira fase e um produto de síntese como resultado da integração sistêmica num segundo momento (ROSS, 1995). Como resultados cartográficos, procurou-se agrupar as informações obtidas nos mapas temáticos em um cartograma específico de síntese, representado pelo Mapa do Zoneamento Ambiental.
A pesquisa teve com suporte as atividades de gabinete, que incluíram a leitura e análise de publicações especializadas, jornais, revistas, bem como o uso de métodos e técnicas cartográficas, geomorfológicas, sistêmicas e ecodinâmicas para interpretação de cartas topográficas e temáticas. Os trabalhos de campo objetivaram a coleta dos dados observados, entrevistas, registros fotográficos e conferência de informações obtidas em gabinete.

Conhecimentos científicos e técnicos em espeleologia foram aplicados na exploração e caracterização das cavernas da região, resultando na elaboração de propostas para o uso turístico dos ambientes subterrâneos, com inclusão social da população local.

4. O turismo interativo na Chapada Diamantina

A colonização da Chapada Diamantina teve início na segunda metade do século XVII, quando foram distribuídas terras às margens dos rios Paraguaçu e de Contas, com os habitantes desempenhando atividades de roçado, criação e de caça. Entretanto permaneceu praticamente despovoada até meados do século XIX (Pereira, 1937).

Desde a descoberta das primeiras jazidas diamantíferas na Vila Isabel, atual Mucugê, no ano de 1844, a ocupação humana vem impondo sensíveis modificações no meio natural. Em 1870 houve o declínio da atividade mineira, porque as descobertas das minas diamantíferas na África do Sul prosperavam cada vez mais. E nesta mesma época, iniciou-se a plantação de café na região.

Na comunidade de Igatu, situada a 12 Km ao sul de Andaraí, os homens mais velhos, que sempre trabalharam no garimpo manual, para o sustento da família, hoje lavram pequena produção agrícola nos sítios e roçados. As mulheres dos garimpeiros, acolhem os visitantes em suas residências, mantendo a hospitalidade característica da cultura garimpeira, servindo biscoitos, doces e o tradicional café-de-garimpeiro, torrado no açúcar. Após as caminhadas, os turistas são recebidos com mesa farta posta no quintal, onde são servidos os melhores pratos da culinária local.
Excelentes conhecedores da região, os garimpeiros acompanham os visitantes por um entrelaçado de caminhos, levando-os para locais exuberantes, onde despontam cachoeiras monumentais. Durante o trajeto, esbanjando conhecimento, eles explicam os vários tipos de garimpo manual, como a Grupiara, o Cascalhão, a Gruna e de Barranco (Neu, 1990).

Além de exemplificarem os tipos de garimpo e suas peculiaridades, mostram como era o funcionamento de todo o sistema, como represas, canais, ?chabus? e ?montoeiras?, explicando como usavam cada ferramenta em cada tipo de extração diamantífera. Narram como eram as relações de trabalho entre garimpeiro - dono de garimpo - dono de terras, as histórias vividas por eles, de amigos e de antepassados. Na realidade contam um pouco da História do Brasil.

O Vale do Pati está encravado no coração do Parque Nacional, após uma sucessão de serras e vales. Com população aproximada de 250 habitantes, o povoado está situado a cerca de 20 quilômetros de Andaraí, e o acesso é realizado através das estreitas e sinuosas trilhas calçadas com pedras, construídas pelos escravos para facilitar o transporte do café, principal produto local até a década de sessenta. As trilhas também servem de ligação entre o Pati e os povoados de Guiné e Capão, ambos localizados nos limites ocidentais do Parque Nacional.

O trecho Andaraí - Pati é habitualmente vencido a pé, com duração aproximada de seis horas, quando são encontrados os primeiros sítios pertencentes aos Srs. Masur e Eduardo. Na chegada ao Vale, após horas de caminhada, tem-se a fantástica vista do alto do platô. Nesse local onde se deslumbram íngremes vertentes úmidas e verdejantes, regadas por incontáveis filetes d?água, que desaparecem no meio de matas fechadas entremeadas de cultivos policultores.

Atualmente a comunidade de patizeiros dedica-se ao plantio de roçados de mandioca, milho e feijão e ao cultivo de café e banana, principais produtos comercializados nas feiras de Andaraí e Guiné. O cultivo é feito nas vertentes íngremes do vale, em clareiras abertas no interior da floresta. No meio da mata é encontrado o cemitério do povoado, onde são raros os sepultamentos, em virtude da mortalidade infantil aproximar-se de zero e a expectativa da população adulta ser elevada.

Nos dias de feira, os agricultores despertam ainda de madrugada para o carregamento dos animais com as mercadorias vendidas em Andaraí e em Guiné. As famílias de patizeiros dirigem-se para o comércio, tendo os homens montados sobre os cavalos ou agrupados com os burros de carga, enquanto na retaguarda seguem as mulheres e as crianças, portando sacolas e matulas, muitas delas equilibradas sobre as cabeças.

Os turistas que visitam o vale contratam os patizeiros para o transporte de mantimentos em lombo de burro. Os visitantes são acomodados nas casas simples dos moradores, onde recebem grossas cobertas e camas de couro.
Na Gruta do Poço Encantado, localizado na Fazenda Natal, em Itaetê, 70 Km ao sul de Andaraí, agricultores locais tiveram participação fundamental nos trabalhos iniciais de ordenamento e manejo para a introdução do turismo. Os pequenos posseiros foram orientados e instruídos sobre a fragilidade do ambiente subterr6aneo e a capacidade de carga do ecossistema. Atualmente os agricultores trabalham na recepção e acompanhamento dos turistas, dando o suporte e segurança no interior da caverna.

Considerações finais

Durante o processo de ocupação da Região Central da Bahia, tanto a floresta como a caatinga foram dizimadas pelo corte e pelo fogo. Houve desaparecimento da vegetação original, contribuindo para a redução das precipitações e comprometimento dos rebanhos bovinos. Na área do Parque Nacional e entorno as atividades econômicas reproduzem aquelas tradicionalmente desenvolvidas na região, como o extrativismo mineral e vegetal, a agricultura e a pecuária, todas elas em evidente decadência.
Como as áreas contíguas ao Parque são predominantemente pecuaristas, o desmatamento é incentivado e as antigas lavouras de subsistência são impelidas ao recuo. Nesse contexto o turismo surge com alternativas para os graves problemas sociais e econômicos que afligem a população local.

Entretanto, o desenvolvimento do turismo ecológico e rural acarretou aumento da demanda pelos produtos comercializados na região, provocando elevada alta dos preços. Consequentemente, nas feiras dos maiores centros urbanos, como Andaraí, Palmeiras e Lençóis, somente a carne é acessível aos residentes, enquanto os cereais e produtos hortifrutigranjeiros cultivados extra-regionalmente são vendidos a preços exorbitantes.

Mesmo com o declínio da cultura cafeeira nos anos sessenta, as comunidades tradicionais de agricultores de base familiar permaneceram nos vales e pés-de-serra, onde se dedicam até os dias atuais ao plantio de policulturas, cujos produtos são comercializados diretamente nos núcleos urbanos de Andaraí e Guiné.

São essas populações tradicionais de base familiar constituídas de garimpeiros e agricultores que sofrem os maiores impactos sócio-ambientais. Com a proibição das atividades que lhes proporcionavam a subsistência, os garimpeiros vagam pelas ruas em busca de alguma atividade que possa mantê-lo e à sua família. Por outro lado, a transformação do Parque Nacional em área turística, provocou especulação imobiliária na região, sobretudo no interior da reserva e entorno.

É inevitável o aumento populacional em razão do desenvolvimento turístico exigindo a construção imóveis residenciais e comerciais, loteamentos, eletrificação, abertura e melhoria de estradas, hotéis, pousadas e aeroporto. Por isso, o plano de manejo para o Parque Nacional da Chapada Diamantina e entorno, deve considerar as novas formas de uso e ocupação.

Por outro lado, faz-se necessário especial atenção aos dois tipos de comunidade envolvidas com o Parque Nacional: os povos tradicionais, agricultores e garimpeiros de base familiar - que mantêm uma relação de convivência com o meio - e as periféricas, representadas pelos criadores, grupos alternativos e populações urbanas envolvidas com o rural e ecológico.

Referências bibliográficas

NEU, Claudia. O Garimpo Manual de Igatu: o barranco do Gererê e os efeitos no meio ambiente. Monografia de Graduação (mimeo). DGEO / CFCH / UFPE: Recife, 1990.
PEREIRA, Gonçalo de A. Memória História e descriptiva do Município de Andaraí. Imprensa Official da Bahia: Salvador, 1937.
RODRIGUES, Adyr, B. Turismo eco-rural: interfácies entre o ecoturismo e o turismo rural. In ALMEIDA, J., FROEHLICH, J. e RIEDL, M. (orgs.). Turismo rural e desenvolvimento sustentável. Campinas: papirus, 2000.
SEABRA, Giovanni de F. Estudo Geomorfológico da Região Cárstica de Andaraí: uma contribuição à conservação. Dissertação de Mestrado em Geografia Física (mimeo). DGEO / CFCH / UFPE: Recife, 1991.
______________________. Pesquisa Científica: o método em questão. Brasília: Editora UnB, 2001.

 

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