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Mossoró e os comboieiros de outrora
José Romero Araújo Cardoso
Professor adjunto
do Departamento de Geografia da UERN e assessor da Fundação Vingt-un
Rosado/Coleção Mossoroense.
(*) José Romero Araújo Cardoso
No início do século XIX, quando Henry Koester esteve na povoação de Santa
Luzia do Mossoró, o lugar apresentava marcas em sua espacialização
geográfica através de inexpressivos arruados, bem como população
rarefeita, sujeita a todas provações. A maioria habitava a zona rural, a
qual sofria duplamente com a ausência de perspectivas de melhor qualidade
de vida, com ênfase aos problemas ocasionados com a calamidade do
abastecimento d?água.
A dinâmica econômica tangenciada com o vertiginoso crescimento da cidade
surgiu quando do assoreamento do porto de Aracati, no Estado do Ceará, em
meados da segunda metade do século XIX. O escoamento de boa parte da
produção sertaneja das unidades territoriais nordestinas vizinhas ao
Estado onde se encontra a desembocadura do Rio Jaguaribe era feito através
do atracadouro aracatiense, incluindo a produzida no oeste potiguar.
Naturalmente, as atividades antes desenvolvidas no porto de Aracati foram
sendo transferidas para Mossoró, implementando dessa forma a importância
do município a ponto de, em 1872, conquistar emancipação política. A
existência de condições naturais que favoreceram o escoamento da produção
atraiu a atenção de diversos comerciantes, com destaque para o suíço
Ulrich Graf. A casa importadora e exportadora que mantinha logo se
transformou em um dos mais lucrativos empreendimentos. Graf passou a lutar
em prol da estrada de ferro, cujo início só se efetivaria no começo da
década de dez do passado século. A existência de imensas salinas ao longo
da costa, bem como na desembocadura do rio Apodi-Mossoró, também favoreceu
bastante ao crescimento do antigo povoado outrora submetido ao município
de Assu.
Mesmo assim, a via férrea só se interligou com a cidade paraibana de Sousa
em avançado ano da década de cinqüenta do século XX. Apelos insistentes de
Jerônimo Rosado, Felipe Guerra, entre outros, não ressoaram positivamente
nas esferas do poder durante décadas.
A necessidade de se dispor de uma complexa rede ferroviária facilitando o
racional escoamento da produção, destacando-se àquela que caracteriza a
economia do semi-árido do oeste potiguar, bem como a dos estados vizinhos,
sobretudo a porção oeste da Paraíba, exportada através da estrutura
existente na época em Mossoró, pode ser apontada como empecilho à dinâmica
das exportações, efetivada via Porto Franco. O trem era o mais viável meio
de transporte em virtude do crescimento da produção sertaneja. Algodão,
sal, gesso, das vossorocas da espadilha, cera de carnaúba, peles e couros,
inundavam o dinâmico comércio do município que ficou conhecido como
capital do oeste potiguar.
Essa dinâmica foi propiciada pela necessidade européia de se reconstruir,
de ressurgir dos escombros a que ficou reduzido, em grande parte, o velho
continente de antigas civilizações. A economia nordestina passou por um
dos seus mais importantes momentos. Toda produção, depois de exportada,
era negociada na Bolsa de Comoditties, a qual, não suportando a pressão,
veio a quebrar em 1929. Em diversos lugares que apresentaram importância
econômica, viveu-se um momento de euforia nunca antes imaginado.
Para atender a consolidação das exigências externas, suprindo a carência
absurda de meios de transporte, principalmente em razão dos ramais
ferroviários terem limitação em suas abrangências, começou a haver nas
veredas do sertão crescimento exponencial de velhos conhecidos dos
difíceis tempos do transporte de mercadorias durante a colônia e império.
Era imensa a depreciação da produção em virtude da aventura empreendida
por incontáveis agentes econômicos oriundos dos mais diversos rincões.
Eram os comboieiros, almocreves ou tropeiros, condutores de tropas de
burro que demandavam a Mossoró, intuindo melhores preços para os seus
produtos.
Os tropeiros foram responsáveis, não os únicos, mas um dos mais
importantes agentes, para a concretização dos negócios realizados em
Mossoró. Disponibilizavam a produção sertaneja na praça depois de viverem
continuamente as mais inusitadas experiências no meio das caatingas.
Os mais afortunados possuíam tropas com mais de 500 burros. Eram os
grandes fazendeiros enriquecidos com o algodão, um dos principais produtos
na pauta de exportações nordestina quando do auge econômico que marcou os
anos de 1919, 1920 e 1921, não apenas no Brasil, mas praticamente em todo
mundo.
E
nfrentando os perigos dos caminhos tortuosos e cheios de mistérios do
sertão, secas, invernos intensos, a ação alucinante das intempéries e
ataques de bandidos, entre outros desafios, os tropeiros, cheios de
esperanças, trouxeram muito da prosperidade da terra de Santa Luzia do
Mossoró. Em pouquíssimo tempo, transformou-se em um dos mais importante
município potiguar. Mantendo as diferenças, caso parecido foi verificado
no sul do Ceará, embora este esteja atrelado a fenômenos místicos.
Quando distâncias e barreiras naturais transformaram porções dos estados
do Ceará e da Paraíba em territórios econômico-sociais intimamente
vinculados a Mossoró, sobretudo as mais limítrofes, os tropeiros com suas
cargas e mercadorias tornaram-se indissociáveis elementos da paisagem
mossoroense de uma época.
Valorizar e render homenagens às lutas, aos esforços, aos sofrimentos, às
alegrias e contribuições dessa gente brava significa enveredar pelas
velhas trilhas devassadas pelas alpercatas e pelos cascos dos burros das
alimárias que traziam os mais importantes fluxos que alimentaram a
orgulhosa economia da terra de Santa Luzia do Mossoró em efusiva fase de
sua história.
(*) José Romero Araújo Cardoso é professor adjunto do Departamento de
Geografia da UERN e assessor da Fundação Vingt-un Rosado/Coleção
Mossoroense. romerocardoso@uol.com.br |