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As rotas culturais do Turismo Sertanejo

Giovanni de Farias Seabra
Professor Adjunto do Departamento de Geociências - CCEN - UFPB.

Turismo, cultura e desenvolvimento social


O planejamento turístico no Brasil tem priorizado as regiões litorâneas em detrimento das áreas interioranas do País. As principais conseqüências da concentração de recursos e equipamentos no litoral traduzem-se na avassaladora especulação imobiliária com descaracterização dos padrões arquitetônicos locais, marginalização das comunidades tradicionais e aceleração do processo de aculturação dos grupos sociais comunitários.

Por isso, deve-se lançar um olhar para o interior - o domínio dos Sertões - onde a identidade cultural genuinamente brasileira se faz presente. Com extensão de aproximadamente 1 milhão de quilômetros quadrados e população aproximada de 20 milhões de pessoas, o semi-árido nordestino é cercado de características únicas. As precipitações atmosféricas reduzidas e irregulares associadas às temperaturas elevadas favorecem o surgimento de um relevo de formas bizarras. São amontoados de pedras multiformes empilhadas sobre lajedos, equilibrando-se umas sobre as outras, em franco desafio à gravidade terrestre. Na paisagem sertaneja destacam-se pirâmides, pães-de-açúcar, cristas, serrotes, boqueirões e matacões.

Nas distantes áreas interioranas surgem os solos rasos e pedregosos cobertos por uma vegetação rala e espinhenta ? é a caatinga hiperxerófita.

Entre as espécies vegetais rasteiras e arbustivas destacam-se a macambira, o xique-xique, o caroá, o facheiro, o mandacaru e a jurema. Espécies arbóreas são aproveitadas na construção de casas, artefatos rudimentares e chás medicinais. Entre as espécies lenhosas mais comuns estão o juazeiro, o pau-ferro, o mulungu, o umbuzeiro, a aroeira, a baraúna, a mucunã e a umburana.

É nesse ambiente de terra rachada e vegetação acinzentada que vive o sertanejo típico. Vestindo indumentária de couro e alpercatas nos pés, o rude homem da caatinga é um elemento sempre presente no ambiente da caatinga.

Por suas características exóticas e peculiares, tanto no que diz respeito à paisagem natural, assim como nos seus aspectos culturais, no sertão nordestino são encontradas as maiores atrações turísticas do Brasil.

Para consumir o produto nordestino surge o Turismo Sertanejo, uma forma de lazer fundamentada na paisagem natural, no patrimônio cultural e no desenvolvimento social das regiões interioranas do Brasil (Seabra, 2001d). Dado ao seu caráter natural, cultural, paisagístico, sócio-econômico, ecológico e educativo, o turismo sertanejo insere-se na perspectiva desenvolvimento/preservação ambiental do semi-árido nordestino, priorizando a capacidade de suporte dos sistemas naturais e promovendo o desenvolvimento sustentável dos sistemas econômico-sociais.

O turismo sustentável "é aquele economicamente viável, mas não destrói os recursos dos quais o turismo no futuro dependerá, principalmente o meio ambiente físico e o tecido social" (Swarbrooke, 2000, p.19). Nesta proposta cabem menos os grandes empreendedores e mais os pequenos empresários, as associações comunitárias e a sociedade como um todo. A prioridade do projeto é o bem estar do cidadão e de sua família, pois "a qualidade de vida deve alcançar níveis desejáveis em todos os campos: físico, biológico, social, cultural e psíquico" (Ruschmann, 1997). No tocante à sustentabilidade social, o turismo sertanejo possibilita compreender de forma integrada o meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, sobretudo no que diz respeito à cultura do homem nordestino e ao setor produtivo à ela agregado. Nessa perspectiva o rudimentar é valorado. Os produtos do artesanato, como o tear, a cerâmica, as esculturas em madeira, os artigos de couro e a comida típica têm mercado garantido. Os consumidores são os próprios nordestinos e os visitantes oriundos de outras regiões do país e do estrangeiro.

O palco onde se desenvolvem as ações do turismo sertanejo corresponde aos pequenos centros urbanos do interior e áreas rurais contíguas, destacando-se as paisagens naturais e agropecuárias e o ambiente sócio-cultural. Essa modalidade de lazer insere-se na categoria de turismo exótico, um misto de agroecoturismo, com ênfase na cultura regional e na comunidade local. Essa proposta de turismo sustentável centrada no desenvolvimento social tem como mais importante elemento catalizador da cadeia produtiva a inserção da população residente e o aproveitamento dos recursos da própria região.

Ao apresentar alternativas econômicas para o semi-árido nordestino, o turismo sertanejo impulsiona a cadeia produtiva, tendo como base a descoberta e identificação dos atrativos turísticos, sem que haja descaracterização da paisagem sertaneja e nem a perda da identidade cultural do homem do sertão. Outro aspecto importante é a revitalização do padrão arquitetônico urbano, a limpeza das cidades e a revalorização das feiras livres, onde o artesanato e a culinária servirão como incentivo cultural e econômico.

Neste panorama é idealizada uma nova modalidade de turismo alternativo de custos reduzidos, uma vez que os recursos turísticos já se encontram no local. Por outro lado, a mão-de-obra é formada pelo próprio homem sertanejo e sua família. Estes são os marcos conceituais que definem o turismo sertanejo, que se caracteriza por ser uma atividade de lazer interativa com a paisagem interiorana, onde estão presentes o quadro natural, a cultura local e a participação integrada da comunidade residente.

De base fundamentalmente social, o turismo sertanejo tem um perfil agroecoturístico e cultural, possibilitando ao turista vivenciar experiências participativas em meio à paisagem sertaneja, deleitando-se com as apresentações folclóricas e culturais. Além do mais, o turista é acomodado em pequenas unidades hoteleiras familiares, nos pequenos centros urbanos e no campo, onde os hábitos simples de vida são um elemento a mais na paisagem, proporcionando descanso, lazer e crescimento pessoal ao visitante.

Nesta perspectiva devem ser implantados os circuitos turísticos, através da criação de uma rota de ligação entre os municípios integrantes do projeto. O agrupamento dos municípios reduz os custos do investimento em infraestrutura e serviços e encurta as distâncias percorridas, dando maior mobilidade ao visitante e possibilitando a ele maiores oportunidades para conhecer e vivenciar os hábitos, mitos, ritos e festejos característicos de diferentes comunidades. Os circuitos turísticos contrapõem-se à política de criação de pólos de desenvolvimento. Os pólos turísticos concentram a riqueza em alguns pontos e geram miséria no restante da região, enquanto que os circuitos integrados proporcionam o desenvolvimento com distribuição de renda a custos reduzidos.


O Circuito Turístico do Bode e do Algodão


Considerada uma das regiões mais secas do Brasil, os Cariris Paraibanos localizam-se na Mesorregião da Borborema, no trópico semi-árido do Estado da Paraíba. Fragilizada ambientalmente e socialmente, apresentando baixas densidades demográficas e elevados índices de emigração, essa área, todavia comporta um potencial turístico ecológico e cultural elevado.

Essa área situada no centro sul do estado da Paraíba integrava no século passado o Sistema Gado-Algodão (Silva e Lima, 1982), destacando-se os criatórios extensivos e a cultura do algodão arbóreo. A economia regional floresceu e tornou-se respeitada com esses dois produtos responsáveis, à época, pelo padrão médio elevado do homem sertanejo e registrado nas habitações suntuosas e confortáveis encontradas tanto no meio urbano como na zona rural. Atualmente a criação de bode é o maior responsável pela sustentação econômica do Cariri, do algodão restam poucas culturas, timidamente renascendo, guarnecidas pelas edificações rurais e urbanas dos tempos de outrora.

A Região do Cariri Paraibano possui um total de 29 municípios, dos quais cerca de 12 são apontados como possuidores de elevado potencial turístico. Entre estes estão os municípios de Boqueirão, Cabaceiras, Gurjão, São João do Cariri, São José dos Cordeiros, Congo, Coxixola e Monteiro. Entretanto, para a implantação de um projeto turístico de base sustentável é necessário inventariar e mapear os principais atrativos naturais e culturais que darão suporte a um Projeto Piloto de Turismo Integrado de Base Social.

Constituem recursos turísticos do Cariri as formações geomorfológicas, os sítios arqueológicos, a vegetação xerófita e a cultura do homem sertanejo. Nos sítios arqueológicos são encontradas inscrições e figuras rupestres da Tradição Agreste e Itacoatiara, alem de artefatos produzidos pelos grupos indígenas primitivos, como panelas, cachimbos, machados, flechas e lanças. As manifestações folclóricas e os festejos religiosos são uma marca do Cariri, como também a musicalidade da população local, traduzida no autêntico forró pé-de-serra e nas festas juninas. Também estão presentes na cultura popular os artigos de couro, de barro e tear que, juntamente com os doces caseiros e queijos, são comercializados pela população de menor renda.

A Muralha dos Gigantes, em São João do Cariri, é uma elevação de rochas graníticas e metamórficas que se prolonga desde a divisa com o Rio Grande do Norte até as proximidades de Pernambuco, cortando a Paraíba de norte a sul, por mais de cem quilômetros. Neste local foi encontrado um rico acervo arqueológico, cujos desenhos e inscrições retratam a os primórdios da história do homem do Cariri. De elevado valor geomorfológico, arqueológico e turístico, o Serrote do Picoito está sendo destruído através da extração do granito para a mineração.

A base social do Projeto Turístico é fortalecida através da participação efetiva da comunidade local, já na fase inicial. No Circuito Turístico do Bode e do Algodão a elevação do padrão de vida da população local será incentivada a partir da geração de pequenos negócios, porque fazem parte dos roteiros os pequenos sítios policultores, as fazendas e a zona urbana, onde o turista poderá descansar nas hospedarias familiares pertencentes à população residente.

As políticas públicas centralizadoras, a concentração de renda, as condições socioeconômicas da população, a deficiência de equipamentos e serviços urbanos, além da precária estrutura de lazer, são entraves ao desenvolvimento de um projeto turístico regional. A ausência e o desinteresse do Poder Público no desenvolvimento de programas sociais na região supõe que as iniciativas para execução de projetos de turismo sustentável devem partir das universidades e das organizações não-governamentais, que possam atuar junto aos setores organizados da sociedade civil.



CONSIDERAÇÕES FINAIS


Apesar do clima hostil, marcado por longos períodos de seca, a Região dos Cariris Paraibanos emerge como uma das regiões de maior potencial turístico do Brasil. Os atrativos turísticos são encontrados em toda a paisagem sertaneja. São as formas bizarras do relevo, como as pedras furadas, lajedos, batólitos e matacões.

Os rústicos artigos e couro, fibras vegetais e algodão, associados à típica culinária regional têm mercado certo dentro e fora da Região do Cariri. O homem sertanejo, seus hábitos culturais e suas crenças religiosas integram o cenário turístico do Cariri e formam, juntamente com sua família mão-de-obra indispensável em um projeto de turismo sustentável regional.

É preciso, entretanto, que um projeto de turismo de base social para o Cariri siga um planejamento consciente, que os municípios integrem circuitos e não pólos de desenvolvimento, e que tenha como parceiros a Universidade, organizações não-governamentais, a comunidade local, o estado e as prefeituras envolvidas.

Pesquisas realizadas em pequenas localidades turísticas habitadas por populações tradicionais indicaram que os impactos sócio-culturais e sócio-econômicos negativos provocados pelo turismo são tanto maiores, quanto menor for o nível de organização social da comunidade e a auto-estima dos seus membros. Ao considerar-se o turismo como parte da cultura e a cultura como produto turístico, a sustentabilidade do projeto de turismo social será proporcional ao nível de participação dos membros comunitários.




BIBLIOGRAFIA


BENI, Mário Carlos. Análise Estrutural do Turismo. São Paulo: Editora Senac, 1997.

GALLERO, Álvaro Lopes. Realidades del espacio del empleo en el sector turístico. IV Encontro Nacional de Turismo com Base Local. Anais. Joinville: IELUSC, novembro/ 2000.

RUSCHMANN, Doris. Turismo e Planejamento Sustentável. Campinas: Papirus, 1997.

SEABRA, Giovanni F. Pesquisa Científica: o método em questão. Brasília: Editora UnB, 2001a.

__________________. Ecos do Turismo: o turismo ecológico em áreas protegidas. Campinas: Editora Papirus, 2001b.

__________________. Plano de Negócios CAATINGA: Sistema I ? Turismo Social. Ouricuri, 2001c.

__________________. Turismo Sertanejo. Anais do I Simpósio Nordestino de Turismo Sertanejo. João Pessoa: DGEOC/UFPB, novembro/2001d.

SILVA, Marlene M. e ANDRADE-LIMA, Diva M. Sertão Sul. Recife: Sudene, 1982.

SWARBROOKE, John. Turismo Sustentável: conceitos e impacto ambiental. Vol 1. São Paulo: Aleph, 2000.

 

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