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A paisagem sertaneja e o lugar do turismo
Giovanni de Farias Seabra
Doutor em Geografia
Física, Pós-Doutor em Geologia Sedimentar e Ambiental, Professor Adjunto
da UFPB.
Introdução
A partir do mar, perde-se o olhar nas lonjuras do sertão, as terras
infindas do interior. Imerso na distante paisagem sertaneja surge o lugar.
Muitas vezes paisagens e lugares mesclam-se num cenário difuso, passando
despercebidos aos visitantes menos atentos. Ao percorrer os sertões,
muitas vezes nos distanciamos dos lugares, afastando-nos do locus onde
reina a sabedoria popular.
Penhascos e rochedos são testemunhas dos ambientes de outrora, lugares
onde tribos primitivas elaboravam artefatos para caça, destrinchamento e
cozimento de espécies animais, há muito tempo extintas. Registros
rupestres deixados por comunidades da idade da pedra adornam um sem número
de lajedos, grutas e paredões abruptos à beira dos rios sertanejos, os
quais, na maior parte do ano secos, quando cheios causam explosões de vida
nos mais longínquos rincões dos sertões. Os escritos primitivos, em grande
parte indecifráveis, despertam a atenção e o imaginário popular.
Assim se define o lugar do turismo no sertão nordestino. Nicho cultural
onde um punhado de pessoas interage com o ambiente natural, nele
eternizando seus registros de passagem. Ao longe, colossais monumentos
líticos observam, silenciosos, a evolução da história geológica da vida.
Ao resgatar o lugar, com ênfase nas formas do relevo, o presente trabalho
retrata experiências vividas pelo autor nos domínios geomorfológicos do
sertão, procurando-se vivenciar a engenhosidade cultural e artística
presente na alma da base social local.
Sem pretender esgotar nesta proposta todo o potencial contido nas
vastidões do Sertão Nordestino, selecionamos algumas áreas como exemplos
ilustrativos de planos turísticos de base social local, situadas nos
estados da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e
Piauí.Os registros de natureza física, social e cultural aqui apresentados
estão intrinsecamente associados à nossa experiência com a análise
geográfica da paisagem sertaneja, cujos métodos de pesquisa permitem
identificar e caracterizar o lugar na sua mais autêntica
representatividade.
O turismo quando planejado segundo o modelo estrutural sistêmico, cuja
sustentação se dá através dos elementos naturais, sócio-econômicos e
culturais regionais e locais, tem seus custos de implantação e de
manutenção sensivelmente reduzidos. A integração desses elementos
incentiva a inserção de novos serviços e produtos na economia local,
impulsiona a cadeia produtiva e promove a elevação do padrão de vida da
comunidade residente.
A paisagem sertaneja
Nos idos do descobrimento do Brasil, em carta enviada ao Rei de Portugal,
D. João, Pero Vaz de Caminha referia-se aos sertões como as terras
infindas, com muitas águas, índios bravios e lindas mulheres seminuas de
corpos pintados e sexo exposto.
Segundo a tendência atual, os relatos de Caminha sobre o sertão,
carregados de mistérios, aventuras e sensualidade, seriam hoje
transformados em propaganda turística para divulgação das atrações do
interior do Brasil. Assim relatava o escrivão da corte portuguesa:
O sertão nos pareceu, visto do mar, muito grande; porque a estender os
olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos ? terra que nos pareceu
muito extensa (CAMINHA, 2002:118).
O sertão, portanto, corresponde às terras continentais, cujo isolamento
proporcionou o desenvolvimento de uma cultura própria, baseada numa
história rica em acontecimentos, marcada de lutas, bravuras, lendas, ritos
e mitos. LEITE (2004), refere-se ao sertão como sendo o outro lugar visto
do litoral, um espaço sempre citado pelos cronistas que viajaram pelo
interior do Brasil entre os séculos XVI e XVIII. Segundo a autora, a
partir da carta de Caminha documenta-se o sentido da palavra sertão como
interior, as terras distantes do litoral, ainda não alcançadas pelo
colonizador, a hinterland, deixando implícita a oposição geográfica e
cultural entre litoral x sertão.
A Região Nordeste é influenciada pela ocorrência de correntes de
circulação perturbadas que sopram dos quadrantes sul, norte, leste e
oeste, que compreendem quatro sistemas a saber (NIMER, 1977):
As Correntes Perturbadas de Sul são representadas por invasões das frentes
polares, durante o verão e a primavera, provocando chuvas frontais ao
longo do litoral e encostas do Planalto Brasileiro, chegando a alcançar o
sul da Bahia. No inverno a frente polar de latitude sul, indo atingir o
litoral°ultrapassa
o paralelo 15 pernambucano, enquanto que o sertão permanece sob ação da
alta tropical com tempo estável.
As Correntes Perturbadas de Norte são representadas pelo deslocamento da
Convergência Intertropical (CIT), oriunda da convergência dos alísios dos
dois hemisférios. Ao longo desta depressão o ar em ascendência provoca
chuvas e trovoadas às vezes muito intensas. Na Região Nordeste ela atua
com mais intensidade no verão e outono, quando atinge o cotovelo do rio
São Francisco e o Raso da Catarina.
As Correntes Perturbadas de Leste atuam mais freqüentemente no inverno,
provocando chuvas principalmente na Zona da Mata Pernambucana e na Zona
Cacaueira da Bahia. As precipitações diminuem bruscamente para oeste,
raramente ultrapassando as escarpas da Borborema e a Chapada Diamantina.
As Correntes Perturbadas de Oeste atuam na primavera e outono, quando o
interior do Brasil é submetido aos ventos trazidos pelas frentes de
instabilidade tropicais (IT), provocando chuvas e trovoadas. Essa massa
penetra no interior da Bahia, desfazendo-se ao entrar em contato com o
oceano. Em conseqüência à conjugação desses fatores, menos de 50% do
território regional apresenta climas super-úmidos, úmidos e semi-úmidos.
Por outro lado, o clima semi-árido domina mais de 50% da região, o chamado
Polígono das Secas, ocasionando um caráter peculiar à paisagem sertaneja e
seus reflexos sócio-econômicos e culturais . Essa diversidade climática
torna a região livre das chamadas baixas estações, havendo capacidade para
manutenção de fluxos turísticos durante todo ano.
Com superfície aproximada de 26.000 Km2, o Planalto da Borborema é o
grande destaque na paisagem nordestina. Esta macrounidade do relevo está
situada na região oriental do nordeste brasileiro, estendendo-se pelos
estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. AB? SABER
(1969) referiu-se a Borborema, como um maciço em abóbada de estrutura
irregularmente amarrotada, decorrente de uma intensa atuação tectônica
seguida pela reativação dos dobramentos, que foram acompanhados pela
formação de fraturas e falhas, além de sucessivos aplainamentos. Os
enrugamentos pós-cretácicos acarretaram conseqüências geológicas e
geomorfológicas não somente no maciço cristalino do planalto, mas também
nas áreas circum-adjacentes de estruturas cristalina e sedimentar.
Devido à sua localização geográfica, associada às condições topográficas e
climáticas, o agreste corresponde a uma região da Borborema de clima
semi-úmido, de transição fitoflorística e fitofisionômica, situada entre a
zona da mata do litoral úmido e a caatinga do sertão semi-árido.
Tanto o agreste úmido como o sertão semi-árido, são pontuados de ilhas
úmidas, denominadas brejos de altitude, formas residuais e isoladas de
relevo que surgem nos pediplanos, sobretudo na fachada oriental da
Borborema. Processos erosivos intensos provocaram o rebaixamento da
superfície estrutural, restando testemunhos elevados, cuja exposição aos
ventos de leste originou os oásis sertanejos, onde a água é abundante, os
solos ricos e profundos e a vegetação exuberante. Nessas áreas elevadas o
espaço rural é fragmentado por inúmeros sítios policultores, voltados para
a produção de flores, frutas, hortaliças, cana e fabrico de cachaça e
rapadura nos engenhos centenários.
No inverno, a Frente Polar Atlântica, ao debruçar-se sobre os contrafortes
do planalto, escala suas vertentes e penetra nas calhas dos rios,
reduzindo as temperaturas sertanejas, que nos brejos atingem mínimas
absolutas de 13º C. No agreste, a pluviosidade pode ultrapassar 1.400mm,
em contraste com o semi-árido, a oeste, com médias em torno de 600mm, e a
Zona da Mata, a leste, com precipitações médias de 2.000mm.
Na Bacia do Capibaribe, em Pernambuco, por exemplo, as altitudes da
Borborema se reduzem em patamares na direção leste, numa toposequência
alinhando os municípios de Poção (1.200m), Brejo da Madre de Deus (800m),
Santa Cruz do Capibaribe (500m) e Limoeiro (200m). Esses degraus em forma
de pediplanos comprovam que o Planalto da Borborema foi modelado por
sucessivos ciclos erosivos que afetaram a região (NÓBREGA & SEABRA, 1988).
Como testemunhos das fases de aplanamento, estão dispersas sobre os
pediplanos as serras úmidas. Essas formas onduladas constituem atualmente
importantes destinos turísticos no agreste e sertão, como os brejos de
Poção, Taquaritinga, Brejo da Madre de Deus, Belo Jardim e Triunfo
(Pernambuco); e Pico do Jabre (1.090m), no Município de Teixeira, na
Paraíba. Nesta estrutura, movimentos tectônicos, litologias variadas e
processos de erosão diferencial originaram relevos residuais, com
superfícies superiores às circundantes. Ações intempéricas atuando sobre
os afloramentos rochosos, associados a agentes endógenos, provocaram a
formação de feições geológicas e geomorfológicas bizarras, expostas na
superfície terrestre, e que constituem recursos turísticos de grande
valor.
Com extensão aproximada de 700 quilômetros, prolongando-se desde a cidade
do Recife até o município de Arcoverde, e daí estendendo-se até Salgueiro,
o Lineamento Pernambuco consiste numa falha transcorrente caracterizada
pela movimentação horizontal dos blocos rochosos adjacentes. Ao longo do
falhamento desenvolveram-se desníveis topográficos gerando feições
geomorfológicas exuberantes, adornando com notável beleza a paisagem
sertaneja pernambucana.
Nas escarpas orientais da Borborema o relevo torna-se fortemente ondulado,
constituindo serras e vales revestidos de manto vegetal transicional,
sendo comum o consórcio de espécies arbóreas da mata atlântica, com
arbustos e bromélias da caatinga. Nas vertentes ocidentais da Borborema,
extensas áreas deprimidas são encontradas nas superfícies sertanejas
pediplanadas, onde despontam relevos residuais, como inselbergues,
serrotes e pães-de-açúcar. Um dos grandes exemplos desse cenário no Brasil
é representado pela Depressão de Patos, na Paraíba. É importante salientar
que feições raras de arcos em rochas graníticas, bastante comuns em rochas
sedimentares a exemplo dos arenitos, são encontradas em algumas
localidades do sertão nordestino.
As diferenças litológicas contribuem na gênese de diferentes feições
geomorfológicas, como as formas piramidais, os dorsos de paquiderme e os
morros monoclinais. Diques quatzíticos exumados, mediante processos
erosivos que atuam no rebaixamento das rochas adjacentes mais friáveis,
evidenciam as cristas, formas residuais que se destacam com grande
imponência na paisagem sertaneja. Os boqueirões originam-se a partir do
corte aprofundado, através da superimposição dos rios, de imensas lápides
rochosas outrora embutidas constituindo os diques intrudidos, e
posteriormente exumadas através da erosão diferencial. Essas grandiosas
perfurações rochosas muitas vezes são emparedadas com concreto para a
construção de barragens e formação dos açudes sertanejos. Os boqueirões
constituem monumentos naturais excepcionais de extraordinário potencial
turístico, a exemplo do Boqueirão do Juru, na Serra do Teixeira, Estado da
Paraíba. As cavernas são atrativos turísticos bastante procurados pelos
turistas, sendo uma das principais motivações do ecoturismo na Chapada
Diamantina (SEABRA, 1991).
Com extensão de aproximadamente um milhão de quilômetros quadrados e
população de 20 milhões de pessoas, o semi-árido nordestino é cercado de
características únicas. A distância e o isolamento dos grandes centros
urbanos e culturais, as altas temperaturas e precipitações atmosféricas
reduzidas dão à paisagem um aspecto de carência total, parecendo que ali,
a vida apenas teima em existir.
Muitas vezes o quadro natural assemelha-se ao nada. O clima semi-árido,
sempre quente, torna o calor insuportável em determinadas horas do dia. O
manto vegetal mais parece um emaranhado de gravetos, espetos e espinhos.
As folhas secas caídas pavimentam o chão rachado e pedegroso.
Sobressaem-se nas lonjuras do sertão as pedras nuas queimando sob o sol
escaldante, constituindo um diferencial na paisagem. Sem nenhum exagero,
vive-se ainda hoje nos sertões a idade da pedra lascada. Nos rios nem uma
só gota d?água na maior parte do ano. Para obtê-la, somente cavando fundas
cacimbas nos leitos secos, que servem ao abastecimento humano e ao consumo
dos animais nos períodos de estiagem. Já as noites podem ser muito frias,
especialmente quando sopra o vento aracati vindo do litoral do litoral
cearense.
De outra parte, as rugosidades encontradas nas superfícies pediplanadas,
como os inselbergues, dorsos de paquidermes e morros corcovados,
constituem gigantescas bacias de captação das águas pluviais que são
armazenadas nos açudes naturais encontrados nas áreas deprimidas ao pé das
elevações. Esses reservatórios hídricos são da maior importância tanto
para aliviar a sede dos animais como para o consumo humano. Junto a essas
represas estão localizados sítios policultores, com mão de obra
exclusivamente familiar, destinados à agricultura de subsistência e o
criatório de pequenos animais.
Há uma enorme demanda turística demanda pelas serras úmidas do interior.
Os visitantes saem em busca de aventura nos parques nacionais e outras
áreas protegidas, a fim de percorrer trilhas rústicas e interagir com os
grupos tradicionais, numa relação solidária entre comunidades e viajantes
(SEABRA, 1998; 2001a).
Planejamento ambiental e turismo
Como importante fator de desenvolvimento, diante da economia mundializada,
o planejamento do turismo deve adequar-se às escalas de nível local,
municipal, regional, nacional e global. Dessa forma, de acordo com MELO &
SILVA (2003), impõem-se estratégias de ação num contexto intersetorial das
atividades econômicas e sociais.
Via de regra os planos estratégicos e as ações empreendidas pelos órgãos
governamentais para o setor turístico visam prioritariamente a reprodução
do capital, mantendo à margem do desenvolvimento importantes setores da
sociedade, especialmente os pequenos e microempresários e a mão de obra
local. Por outro lado, o planejamento turístico, quando estruturado num
modelo sistêmico (BENI, 1998) e descentralizado, deve estar associado aos
outros setores econômicos, como agricultura, pecuária, pequenas unidades
comerciais, artesanato e serviços. Alguns desses projetos estão sendo
implantados, com relativo sucesso, no sertão nordestino, envolvendo a
paisagem natural, o patrimônio cultural e as comunidades locais, mediante
o traçado de roteiros alternativos e integrados (Seabra, 2001b; 2004).
Segundo este prisma, deve-se obedecer, basicamente, os seguintes
procedimentos:
?Levantamento do potencial turístico regional e local
?Seleção de áreas
?Estudo da demanda
?Treinamento e capacitação da mão-de-obra
?Incentivo ao associativismo e à microempresa
?Adequação dos equipamentos à paisagem natural e cultural
?Elaboração dos roteiros
?Programação de um calendário turístico
?Marketing e Mix
O levantamento do potencial turístico compreende o inventário e
diagnóstico do local ou zona turística, enfatizando-se os monumentos
naturais, os recursos hídricos, o comportamento do clima, o patrimônio
cultural e as manifestações folclóricas. O perfil sócio econômico deve ser
traçado para o aproveitamento da mão-de-obra e produtos locais.
Realizado o levantamento e o diagnóstico procede-se à seleção de áreas
destinadas às visitas, bem como a estimativa da capacidade de carga dos
lugares turísticos acompanhados de sugestões para melhorias e implantação
de infra-estrutura. Tem-se então a oferta, ou seja, o conjunto de bens e
serviços que são oferecidos ao turista por um dado preço e em um dado
período de tempo.
Definida a oferta dos produtos turísticos pode-se estimar a demanda,
expressada pelo número de turistas que chegam a um determinado local para
consumir bens e serviços. A definição dos preços cobrados pelos produtos
turísticos é da maior importância e pode definir a sustentabilidade do
sistema. A relação entre a quantidade demandada e o preço do produto
turístico, denominada curva da demanda, apresenta uma relação inversamente
proporcional, pois à medida que os preços aumentam, as pessoas tendem a
consumir menos quantidade de bens e serviços e vice-versa (LAGE & MILONE,
2000).
O turismo quando devidamente planejado e estruturado favorece o
desenvolvimento da economia local e regional. MARION e FARELL (1998)
enfatizam que essa atividade promove uma maior integração entre muitos
objetivos conflitantes, como proteção de recursos naturais e culturais,
fornecimento de atividades recreativas e geração de benefícios econômicos.
Em geral, locais com planejamento desenvolvido cuidadosamente e com a
participação da comunidade local alcançam mais sucesso em termos de
satisfação por parte dos visitantes, benefícios econômicos e mínimos
impactos negativos sobre o local (TIMOTHY, 1998). Assim, quando os
residentes participam de todas as fases de planejamento e implantação do
projeto turístico, aumenta as possibilidades de melhoria dos seus padrões
econômicos, a qualidade de vida, o nível educacional, sem o
comprometimento do patrimônio natural e cultural. No planejamento
participativo, cada comunidade deve identificar seus próprios objetivos,
desejos e atividades que refletem a realidade vivida. Sem a participação
dos residentes nas diversas fases de planejamento e execução do plano
turístico, aumentam as chances de prejuízos econômicos potenciais e perda
da identidade cultural causados pela imposição dos padrões econômicos
globais.
Para o planejamento turístico, a fenomenologia auxilia na compreensão do
espaço vivido, este de importância preponderante na busca identidade do
lugar e, portanto, de sua vocação turística. Entre outros fatores, a
realidade social contém uma dimensão estética, e a Geografia cumpre o
papel de compreender o imaginário contido nessa realidade. Essa abordagem
geográfica humanística procura demonstrar a importância da compreensão da
mente dos homens para saber o modo como se comportam em relação ao espaço
(LENCIONI, 1999). A preocupação do espaço vivido coloca no centro a
análise do lugar, isso porque é o lugar, mais do que o espaço, que se
relaciona à existência real e à experiência vivida (LENCIONI, op. cit.).
Segundo a autora, quando o lugar não se coloca como um conjunto de
significados, na maioria das vezes por causa da tecnologia que transforma
todos os lugares em espaços homogêneos, em verdadeiros clones
paisagísticos, os lugares passam a ser não - lugares.
Segundo essa concepção, o treinamento e a capacitação da mão-de-obra devem
obedecer o contexto social local, priorizando-se os indivíduos que estão
fora do mercado de trabalho e gerando oportunidade de renda para as
famílias. Para tanto, é oportuno o respeito aos hábitos culturais,
adequando-os e inserindo-os como atividades de entretenimento ao turista.
É de fundamental importância o incentivo ao associativismo para
estruturação e oferta de serviços e produtos destinados ao turista, como
guias, peças de vestuário, artesanato e culinária regional. Quando
organizados em associações, os moradores dinamizam a operacionalidade dos
serviços facilitando a comercialização da produção local. Exemplos como
esses são observados em Santana do Cariri e Nova Olinda (CE); São Raimundo
Nonato e Sete Cidades (PI); Conceição das Creoulas e Ouricuri (PE);
Chapada Diamantina (BA), entre outros.
A elaboração dos roteiros depende significativamente das etapas acima
enumeradas, porque é a partir delas que se obtém o traçado das rotas
integradas aos locais turísticos. Os roteiros devem contemplar não somente
os atrativos locais, mas também aqueles situados em toda a zona turística
a fim de que os benefícios possam ser obtidos por um maior número de
indivíduos. A partir do inventário e diagnóstico é elaborado o calendário
de atrativos para a zona turística incluindo-se os locais e produtos
turísticos, eventos e festejos municipais. Deve-se atentar para que as
festas estejam integradas às demais atividades turísticas, a fim de
manter-se um fluxo contínuo de turistas ao longo do ano.
Os locais turísticos, os produtos da terra e os bens imateriais presentes
no imaginário popular são então transformados em peças publicitárias para
divulgação e captação da demanda, obedecendo-se a capacidade de suporte
para que não ocasione escassez dos produtos, e a conseqüente elevação dos
preços, e nem o estress do turista. Vale salientar, contudo, que qualquer
projeto turístico deve considerar os fatores endógenos e exógenos do
desenvolvimento, de forma a valorizar a dinâmica sócio-econômica e
cultural do lugar, mediante um forte enraizamento local.
Circuitos integrados de turismo
O turismo quando planejado segundo o modelo estrutural sistêmico, cuja
sustentação se dá através dos elementos naturais, sócio-econômicos e
culturais locais e regionais, tem seus custos de implantação e de
manutenção sensivelmente reduzidos. A integração desses elementos insere
novos serviços e produtos na economia local, impulsiona a cadeia produtiva
e promove a elevação do padrão de vida da comunidade receptora.
Os objetivos definidos nos planos turísticos são alcançados quando
estruturados sobre bases sustentáveis, visando a inserção social da
população como fator primordial para a perenidade dos recursos naturais e
culturais de uso turístico. O conceito de turismo sustentável refere-se a
um setor economicamente viável, mas que não exaure os recursos dos quais o
turismo no futuro dependerá, principalmente o meio ambiente físico e o
tecido social da comunidade local (SWARBROOKE, 2000).
Os circuitos turísticos são implantados através da criação de uma rota de
ligação entre os municípios que integram uma determinada zona turística,
estando situados relativamente próximos entre si. De superfície variável,
a zona turística representa uma unidade de análise e de estruturação do
universo espacial turístico de um país (BOULLÓN, 2002). No nosso caso, as
zonas turísticas compreendem espaços geográficos no interior do nordeste
que apresentam belezas cênicas extraordinárias, evidenciadas nas formações
estruturais e formas esculturais do relevo, em cujas proximidades habitam
comunidades especiais do ponto de vista cultural tradicional. Essas
macrounidades da paisagem podem atingir uma extensão de algumas centenas
de quilômetros, permitindo a elas tratamento geossistêmico no planejamento
ambiental e turístico.
O agrupamento dos municípios turísticos e potencialmente turísticos em
zonas reduz os custos do investimento em infra-estrutura e serviços. Os
circuitos assim concebidos encurtam as distâncias e possibilitam maior
mobilidade e entretenimento ao visitante. Aumentando o número de lugares
visitados, o turista tem mais oportunidades para conhecer atrativos
diversos e vivenciar os hábitos, mitos, ritos e festejos característicos
de diferentes comunidades.
Pelo fato de inserir-se numa estrutura espacial descentralizadora, os
circuitos turísticos contrapõem-se à política de criação de pólos de
desenvolvimento. Os pólos turísticos, ao contrário, concentram a riqueza
em alguns pontos e geram miséria no restante da região, enquanto que os
circuitos integrados proporcionam o desenvolvimento com distribuição de
renda a custos reduzidos.Além dos atrativos turísticos, uma zona turística
deve contar, em seu território, com equipamentos e serviços,
infra-estrutura de estradas, vias de acesso e transportes, relacionando
entre si os diversos elementos que compõe o espaço turístico.
A idealização, elaboração e execução de circuitos turísticos, trans e
intermunicipais, baseou-se nos princípios da sustentabilidade econômica e
cultural das comunidades locais, cujo requisito principal reside no
envolvimento direto da população, num processo interativo de construção
continuada.
Em nível regional, foram selecionadas áreas no interior nordestino, com
notáveis atrativos turísticos geológicos e geomorfológicos, como o
Pediplano Sertanejo e a Chapada Diamantina (BA); Agreste Pernambucano,
Serra do Catimbau, a Pedra do Reino e o Serrote do Urubu (PE); Cariri
Paraibano e a Pedra da Boca (PB); Chapada do Araripe (PE, CE); Sertão
Central (CE); Serra da Capivara e Sete Cidades (PI).
Considerações finais
Desde sua estruturação em nível de planejamento, que remonta aos idos de
1960, o turismo no Brasil tem priorizado os investimentos em
infra-estrutura, equipamentos, serviços e marketing notadamente nos
espaços litorâneos. Os planos estratégicos e ações governamentais não
alcançaram os objetivos amplamente divulgados nos meios de comunicação,
sobretudo no que diz respeito à geração de emprego e benefícios diretos
para a população receptora. Além disso, há sérios comprometimentos
ambientais advindos dos grandes empreendimentos hoteleiros construídos no
litoral, que ocupam e impedem a circulação de pessoas nas áreas que
deveriam ser destinadas ao uso público, especialmente as praias. Esses
fatos acentuaram-se com as ações empreendidas através do Programa de
Desenvolvimento Turístico no Nordeste ? Prodetur.
Como essas áreas litorâneas estão sob forte pressão dos empreendimentos
turísticos, comprometendo tanto a paisagem natural como o patrimônio
natural, propõe-se o domínio dos sertões nordestinos como áreas
alternativas para elaboração e implementação de roteiros turísticos, desde
que acompanhados de ações políticas efetivas destinadas promover a
sustentabilidade ambiental, econômica e cultural das comunidades locais.
As formas exóticas do relevo, encontradas no sertão nordestino, são
propostas neste trabalho como o lugar do turismo. Nos espaços contíguos
aos monumentos geológicos são encontrados grupos especiais que mantêm
acesa a chama da cultura, encontrada nas pequenas cidades, vilas, povoados
e propriedades rurais.Além das formações rochosas, constituem espaços para
visitação, as pequenas cidades, vilas e povoados sertanejos, onde as
feiras livres, os festejos, as comidas típicas e o artesanato podem ser
transformados em produtos turísticos, quando devidamente planejados. As
feições paisagísticas do sertão nordestino, com características próprias e
singulares, são atrativos para o desenvolvimento do turismo exótico e suas
modalidades alternativas, tendo como suporte referencial a base social
local.
O aproveitamento das capacidades produtivas básicas impulsiona a economia
regional, norteando a sustentabilidade regional e evitando a implantação
de grandes projetos turísticos, que terminam por monopolizar e capitalizar
todos os seus benefícios. As diretrizes e ações do planejamento oficial
vinculam-se às regras do modelo econômico concentrador de capital,
menosprezando o desenvolvimento regional sustentável.
O turismo concebido de maneira a priorizar os elementos naturais,
sócio-econômicos e culturais locais e regionais, tem os custos de
implantação dos projetos sensivelmente reduzidos. A integração desses
fatores insere novos serviços e produtos na economia local, impulsionando
a cadeia produtiva e elevando o padrão de vida da comunidade residente.
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