|
A força da
fé
Roberto Jamacaru de Aquino
Escritor e cronista
do Cariri Cearense.
O nosso desafio em fazer uma caminha de 26 Km, de um bairro extremo da
cidade do Crato para a cidade de Barbalha, no Ceará, não parecia ser tão
ousado. Afinal, já havíamos percorrido distância maior, uns 44 Km, também
do Crato até a cidade de Missão Velha.
Os preparativos começaram às 03:00 h da madrugada: protetor solar, boné,
roupa leve, um bom par de tênis, café reforçado, lanche para comermos na
estrada e água, aliás, muita água. Após o aquecimento mergulhamos na
escura madrugada onde o silêncio misterioso da cidade era quebrado apenas
pelos roncos dos veículos (motos e carros) vindos das festas das noites do
sábado. Ouvíamos e víamos, também, galos cantando, cachorros latindo,
gatos miando, gente fazendo amor ou xixi nos becos escuros, bêbados
capotados nas calçadas ou andando em ziguezague pelas ruas; vigias
dormindo, barzinhos lotados, feirantes indo para o trabalho e, no céu, no
ócio boêmio, ela, a lua, eterna cúmplice dos amantes.
Saímos da urbanização e atingimos a estrada...
O bem-estar causado pelo nosso movimento físico inicial contribuía para o
aceleramento da caminhada. A técnica era de alternação, ou seja, ora
caminhando, ora correndo.
A etária do grupo era composta por jovens na faixa dos seus vinte e tantos
anos e por nós, também ?jovens?, integrantes da seleção dos sub
sessenta...
5:30 h... Surgem os primeiros raios de sol. A princípio esse detalhe
esplendoroso passou a nos dar prazer, depois o esperado: ardor e muita
sede!
Mas, atenção!!!
No meio do caminho, uma surpresa! Ao fundo da pista, ainda bem minúscula,
a imagem de um grupo de pessoas, aproximando-se do nosso ponto de
referência, deixou-nos curiosos e apreensivos. Pensamos: seriam
retirantes? Seriam membros do Grupo dos Sem Terra? Seriam baderneiros?
Seriam o quê aqueles estranhos?
Mais aproximação e muito mais curiosidade nossa... 1.000 metros, 700, 500,
300, 100 e, finalmente, a identificação: tratava-se de um grupo de
romeiros, vinte pessoas, calculamos!
Trajavam a caráter: alpercatas, camisas compridas, o tradicional chapéu de
romeiro, rosário no pescoço; alguns usavam bastões de apoio para a
caminhada. Portavam, ainda, mochilas e sacos recheados com alimentos e
utensílios.
Olhando para aqueles semblantes, percebemos o muito de humildade,
serenidade, paz e alegria. Detalhe: não aparentavam sensações de cansaço!
A felicidade, patrocinada pela fé, esta sim, parecia ser a marca maior
daqueles atletas de Deus.
Ao cruzarmos com esses peregrinos, resolvemos mostrar serviço (uma pitada
de esnobação) exibindo o que julgávamos ter: bom preparo físico. Foi então
que saudamos a todos com a seguinte pergunta de quem quer ganhar
admiração:
- Bom dia, companheiros! Na nossa caminhada já percorremos 15 Km. E vocês,
já andaram quantos?
A reposta, uma espécie não propositada de soco no estômago, nos levou a
nocaute:
- Bom dia, meus senhores! Estamos chegando aqui no Juazeiro do meu Padim
Ciço vindos da cidade de Garanhuns, em Pernambuco...
- O quê???
Assustados (e com os rabos entre as penas), calculamos: lá se vão 400 a
500 Km de distância!!!
Sem revides e humilhações outras (bem que merecíamos) vimos, aos poucos,
aqueles homens se afastando de nós. Prosseguiram serenos e em paz. Não
reclamavam da distância, da dor e muito menos do cansaço. Iam, como Deuses
Olímpicos, prontos para mais 500 km. Iam energisados pela oração! Iam, sem
dúvida alguma, nas asas da felicidade... Estavam chegando na terra do
grande protetor dos nordestinos, o Pe. Cícero Romão Batista!
Quanta fé! |