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outra Maringá

24/05/2005 - José Romero Araújo Cardoso e Gilberto de Sousa Lucena*
A obra musical deixada pelo compositor e médico mineiro Joubert Gontijo de
Carvalho (1900-1977), repleta de valsas, marchas e sambas, revela imensa
influência da cultura popular. Já no início da década de trinta, esse
sensível artista emplacou seu primeiro grande sucesso: a famosa marchinha
carnavalesca Taí (Pra Você Gostar de Mim), gravada por uma então pouco
conhecida menina de vinte anos chamada Carmen Miranda. Foi o início
exitoso da nossa brazilian bombshell.
Era uma fase da nossa música em que os compositores urbanos investiam nos
chamados gêneros regionais populares e outra composição do talentoso
mineiro fez muito sucesso ainda em 1931: Zíngara.
Pelo seu pioneirismo ? em estilo também regionalista ? abordando um tema
bastante explorado posteriormente no nosso cancioneiro popular, a seca do
Nordeste, Maringá (1932) acabou se tornando a mais expressiva das
composições de Joubert de Carvalho. Foi seu maior sucesso e acabou dando
nome a uma hoje grande cidade do estado do Paraná. Recebeu dezenas de
gravações (inclusive no exterior), tendo seu êxito em grande parte se
devido à gravação primitiva do tenor paulista Gastão Formenti (1894 ?
1974) e às excelentes interpretações do cantor de voz canora Carlos
Galhardo (1913 ? 1985), que a gravou por duas vezes em 1939 e 1957.
O folclore sertanejo é riquíssimo e precisam ser resgatadas com grande
interesse as lendas esquecidas com a névoa do tempo e pelos efeitos da
aculturação, a exemplo da história (ou estória?) transmitida de boca em
boca de Maria, uma cabocla sensual que migrou da região do Ingá (no
Agreste paraibano), para a cidade de Pombal (Sertão da Paraíba) em uma
grande seca ocorrida no século XIX.
Reza a tradição que na famigerada estiagem de 1877, Maria deixou Pombal e
procurou novas paragens, deixando naquele longínquo rincão sertanejo um
caboclo apaixonado e com lágrimas nos olhos.
Considerando a riqueza da cultura popular no sertão, da qual era admirador
e grande conhecedor, o dr. Ruy Carneiro (1901 ? 1977) ? no tempo em que
exercia a chefia de gabinete do Ministério da Viação ? encontrou no Rio de
Janeiro Joubert de Carvalho. O político sertanejo falou-lhe sobre a lenda
de Maringá (designação popular de Maria do Ingá, naquele momento ainda não
conhecida por Joubert) e pediu-lhe para musicar a emocionante trajetória
da linda cabocla que abalou a ribeira do Piranhas.
A canção Maringá tem uma curiosa história.
Era muito amigo de Joubert de Carvalho o senhor Jaime Távora, então
secretário do paraibano José Américo de Almeida (1887 ? 1990), na época
ministro da Viação do presidente Getúlio Vargas e grande apreciador da
música do compositor mineiro (a quem ansiava conhecer pessoalmente).
Távora comentou com Joubert sobre a vontade do Ministro, no que ? em tom
de pilhéria ? ouviu: Ora, se ele tem tanta vontade de me conhecer que vá
lá em casa.
Tal informação foi passada por Távora a José Américo que, para grande
surpresa de Joubert, resolveu fazer-lhe uma visita em sua residência no
Rio de Janeiro. Com o ministro também seguiram para o encontro o político
pombalense Ruy Carneiro e alguns amigos.
Joubert queria conseguir com José Américo um lugar de médico no
prestigiado Instituto dos Marítimos e falou do seu desejo a Ruy, que lhe
assegurou: É fácil, peça você mesmo {...} Por que você não faz uma canção
falando dessa tristeza que há no Nordeste, dessa falta de água, lá não
chove... Faça uma canção assim.
Joubert imediatamente foi inspirado pela imagem da seca e disse para o
ilustre pombalense que acabava de vislumbrar o drama de uma cabocla
partindo numa leva, deixando para trás um caboclo a chorar. Chamava-se
Maria (nome popularíssimo no Nordeste).
Quis saber a cidade berço do ministro José Américo. Areia, disse-lhe o
político paraibano. O compositor achou que Areia não dava boa rima. Quis
saber a terra natal de Ruy: Pombal. Não satisfeito, Joubert quis saber
dele onde a estiagem era mais rigorosa nas terras da Paraíba. Ruy
citou-lhe vários lugares, dentre os quais o município de Ingá.
Joubert exultou: Então é a Maria do Ingá.
Naquela noite, na presença de Ruy Carneiro, de José Américo de Almeida, de
Jaime Távora e de outros amigos a música foi composta.
O título da canção Maringá (fusão ou corruptela romântica adotada pelo
compositor por exigências métricas da composição) foi gravada em 1932,
conforme já dito, pelo antigamente famoso tenor Gastão Formenti,
tornando-se sucesso internacional e um clássico do nosso cancioneiro
popular, levando a personagem e a cidade de Pombal ao conhecimento do
público e, principalmente, fazendo com que o drama da seca comovesse a
todos que desconheciam a realidade do Nordeste.
Usurpada indevidamente pelos paranaenses da cidade de Maringá (nomeada em
homenagem à famosa canção), os quais não possuem nenhum direito histórico
ou geográfico sobre o que retrata a música eternizada pela emocionante
genialidade do dr. Joubert de Carvalho que, atendendo ao apelo e à
inspiração de Ruy Carneiro, transformou Maringá num verdadeiro hino do
povo pombalense.
O que o poema tematiza diz respeito somente à cidade de Pombal e à
realidade sertaneja, bastando-nos analisar alguns de seus belos versos:
Foi numa leva que a cabocla Maringá/ Ficou sendo a retirante que mais dava
o que fala/ E junto dela veio alguém que suplicou/ Pra que nunca se
esquecesse de um caboclo que ficou.
Este trecho demonstra que, em tese, não há a menor relação da mensagem
poética com a cidade paranaense de Maringá, a qual nunca foi constituída
por caboclos, como o sertão da Paraíba (notar a ênfase do registro da fala
do homem popular ? fala ao invés da forma infinitiva falar), e sim por uma
população de origem européia que, em sua maioria, certamente desconhece as
levas de retirantes tão típicas dos freqüentes períodos de seca do
Nordeste brasileiro.
Contrariamente, o estado do Paraná tem o privilégio de não sofrer as
estiagens que chegam a expulsar o homem nordestino do campo.
Na realidade, a canção ficou lá conhecida apenas devido ao fato de ter
sido com muita freqüência cantada nas horas de labuta e de lazer pelos
operários da construção civil, nordestinos que, fugindo do flagelo da
seca, migravam para aquele rico estado brasileiro em busca de trabalho.
Explicando que esse produto formidável da genuína cultura popular é por
extensão patrimônio do povo brasileiro e, de modo especial, dos paraibanos
e da conhecida Terra de Maringá, é necessário lembrar a degradação dos
valores seculares sertanejos desconhecida pelas gerações que nunca ouviram
a sublime homenagem de Joubert de Carvalho à bela cidade do Sertão da
Paraíba, berço de estimáveis valores culturais, que abriga vetustos
testemunhos arquitetônicos do estilo barroco e se vangloria de poder
justificar os versos do notável compositor contemporâneo quando afirma com
ternura, dando voz ao humilde caboclo apaixonado:
Antigamente uma alegria sem igual/ Dominava aquela gente da cidade de
Pombal/ Mas veio a seca, toda a chuva foi simbora/ Só restando então as
águas dos meus óios quando chora/ Maringá, depois que tu partiste/ Tudo
aqui ficou tão triste que eu garrei a maginá.
*José Romero Araújo Cardoso é Professor na Universidade do Estado do Rio
Grande do Norte e Gilberto de Sousa Lucena é Mestre em Letras pela UFPB.
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