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A
geografia da luz

Ronildo Maia Leite - Jornalista
Bom dia, Recife.
Artigo publicado no Jornal Diário de Pernambuco em 10/04/2005
Ia dizendo, agora termino: o rio comeu a "Estrela", mas não engulhou. A
partir de então, o velho Chico não deixou de sonhar com outras fábricas.
Amarrando-se às curvas, equilibrando-se nos saltos, consentindo-se.
Claro, o São Francisco não tinha o mapa de hoje quando Delmiro chegou. Foi
o iluminado vaqueiro quem lhe criou um novo traçado.
Olhando de cima é fácil notar: um pouco abaixo de Belém de São Francisco e
Barra de Tarrachil até a barragem de Itaparica é o reservatório de Moxotó,
como quem vai chegando pelo Riacho dos Mandantes, o novo Chico se repete,
mais gordo e mais forte, na forma enviesada de um cavalo marinho. Nesse
canto, ele parece respirar nele mesmo, nos antigos vapores. Banha-se nele
mesmo o Velho Monge. Por inteiro. Nas antigas pérolas. Pra enxugar-se
depois num céu de antigos arco-íris.
Somente nesse trecho, três subestações. É a nova Petrolândia. Mais em
cima, além da cabeça de cavalo marinho, mais três projetos de irrigação, a
reserva dos índios tuxás. E mais três cidades plantadas em terras novas,
pra que o novo Chico pudesse alargar os braços - que agora querem
espichar, espichar até quebrar os ossos. Rodelas, Itacuruba e Barra do
Tarrachil. Lá em cima, nas pernas do cabelo de força, o reservatório de
Moxotó. Finalmente, Paulo Afonso. Agora, o antigo gigante se permite
amarrado por 14.000 quilômetros de linhas de transmissão.
Para se chegar hoje ao enorme complexo de energia, basta pegar um avião
qualquer. Ou seguir por terra, parta de onde partir, como fez o jornalista
Abdias Moura. BR-428 que se emenda com a 122, como quem vai pra Fortaleza.
Do lado de cá, a 432, 360, 210, 116. Vai por aí. Muitas outras estradas
asfaltadas todas elas paridas das águas. Filhas de São Francisco. Antes de
Delmiro Gouveia, porém, os antigos viajantes penetravam a pé no lombo dos
burros. Um deles, Frei Narinho, somente conseguiu navegar de barco até um
lugar vinte e sete léguas acima da embocadura e vinte adiante de Penedo.
Citado por Abdias Moura, leiam esse relato das dificuldades pra atingir a
cachoeira, a partir do Recife:
"Caminhos muito difíceis, e até montanhas, escarpadas, das quais uma perto
de meia légua, sempre a subir e outro tanto a descer, e tão íngreme que eu
me admirava que os cavalos não recusassem na subida ou despencassem na
descida".
Quase três horas de caminhada no lombo dessa montanha.
O São Francisco esperou quase duzentos e oitenta anos pra ganhar as suas
primeiras estradas. Difíceis, é de se imaginar, os caminhos daquele
sertão. Tão difíceis que um antigo servidor público, nomeado em 1940
telegrafista numa cidade do oeste pernambucano, teve de se deslocar
primeiro do Recife pra Salvador de navio. Depois, de estrada de ferro até
Petrolina e, dali, a cavalo até Bodocó.
Um ano depois, o primeiro bispo do sertão pernambucano, Dom Augusto Álvaro
Rocha da Silva gastaria uma semana inteira pra ir do Recife a Floresta.
Pegava um trem em Mimoso, em Pesqueira.
O resto da viagem demorava uma semana. Por onde ia passando, Delmiro
parecia um raio de luz. No que reinventava a cachoeira e construía a
fábrica, rasgava estradas. Através de 520 quilômetros, manda pro mundo as
suas linhas.
Por ele, foram trazidos os primeiros automóveis europeus para o Nordeste.
Partindo de Santana do Ipanema pra chegar à Pedra, a fábrica pra chegar à
Pedra rebolou o gogó da Borborema. Ou pelo rebordo das serras do Muro e de
Sã Pedro.
Os automóveis do vaqueiro iluminado fizeram a festa de muita gente. Neles
passearam, pra conferir a ousadia de Delmiro, o Ministro da Agricultura,
Dr. José Bezerra, e o governador Manoel Borba.
De Quebrangulo à Pedra, em três carrões, durante sete horas, percorrendo
trezentos quilômetros. De Garanhuns à fábrica, em quase vinte e quatro.
Domingo que vem, falo pela última vez sobre o Velho Chico. Conto a
história de como a imprensa pernambucana registrou o fato. Os textos
acima, e dos outros domingos, foram retirados do meu livro "A Geografia da
Luz", com apresentação de Giovanni Seabra, professor de Geografia da
Universidade da Paraíba. |