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MORTE E VIDA DA ULTIMA RAPARIGA DO ROI COURO DE POMBAL

Aí então, veio a minha memória a imagem de um cortejo funeral, subindo a Rua Nova, adentrando a Igreja Matriz, acompanhado por uma duzia de fiéis. Ouvia-se os bronzes insistentes da Matriz de Nossa Senhora do Bonsucesso, no choro solitário de Cicero de Bembem, cadenciados com os flapes-flapes das alpargatas, que solavam o chão quente e poeirento daquela artéria central da cidade de Pombal.

Choros não se ouviam! Vozes? Talvez a de um padre ou de um transeunte que, curioso perguntasse de quem havia sido a idéia de encaminhar um cortejo funeral em pleno meio dia.

Era esta a hora que marcaria o relógio da Coluna da Hora, não tivesse ele parado em 23 de outubro de 1961. De fato, os relógios da Coluna da Hora se emparelhavam-se um sobre o outro indicando meio dia e dali nunca mais ousaram sair: já são tantos anos assim que eu nem me lembro.

Que cavilosa alma acharia de encaminhar um funeral ao esturricante sol de meio dia e em um sábado? A vida tá pela hora morte. A batata e o jerimum também não estão muito barato. Um funeral ao meio dia? Fechariam a barbearia e a banca de anotar bicho para acompanhar um cortejo?.

Morrer, no sentido biológico é extinguir-se, desaparece para sempre. Se alguma coisa fez, se de bom ou de mau, para a memória popular isto é irrelevante, o sujeito ainda será lembrado por um bom tempo. Se não, só será lembrado ao final ou incio de cada mês ou enquanto o INSS mantiver os seus dependentes na folha previdenciária. Há caso, no entanto, de defuntos que continuam na folha da previdência ou abrindo empresas em nome de políticos espertalhões. São casos isolados.

Quem morreu?

Nunca se pergunta o que morreu: Pergunta-se, as vezes, de que morreu. Porém, neste caso, não é quem morre e sim o quê morre. Já o de quê se pode afirmar que foi de inanição ou falta de uso obsolescência.

Ai então veio a minha memória os sermões de Padre Gualberto incitando os fiéis contra aquelas mulheres que, dizia ele, estão para lá do fogo do inferno, por serem elas as desestabilizadoras das famílias pombalenses.

A palavra do padre soava aos meus ouvidos como o som dos comícios nas ruas de Pombal onde os políticos cesuravam as suas próprias práticas.

Que vida teve aquela pobre mulher, dormindo com homens dos mais diversos tipos, em camas frágeis de ferro e de molas expostas como expostas eram suas vidas. Deitavam-se em colchões de palhas e lençóis má cheirosos, em casebres que tremiam com a passagem do trem, o que acontecia a cada doze horas, reversando as vezes entre o cargueiro que colhe óleo na Brasil Oiticica e o de passageiro vindo de Fortaleza, trazendo em seu ventre raparigas novas para acirrarem a desleal concorrência com as putas em final de carreira como a que ora segue num cortejo desprestigiado.

O Rói Couro resumia-se a meia duzia de casebres. Uma única luz amarela de um único poste, sobrevoada por persistentes mariposas, iluminava o Jeep da Polícia que todas as noites ali estacionava enquanto seus dois ocupantes proseiam na soleira da janela com uma das trabalhadoras daquele local de diversão abundante e ao final ainda a extorquia, fosse por sexo grátis fosse tirando-lhes o único trocado ganho naquela noite.

- Tamos indo. Empurre o Jeep e volte para pagar a cerveja...

Ao longe podia-se escutar o fole de oito baixos dedilhado pro Bihina enquanto que Negro Love passa o chapéu fazendo a coleta do Couver que, ao final da noite sequer chega para pagar a cachaça ingerida pelo trio de tocador.


Em cima de um tamboreto de três pernas uma garrafa de cerveja quente é disputada por bêbados lisos porém insaciáveis e raparigas que não mais davam no Rói Couro de Pombal, derrubadas pela fadiga da vida difícil que tiveram e rejeitadas pelo peso da idade.

O Rói Couro era a principal saída da cidade de Pombal para que se dirige a Patos e entrada para quem vinha da cidade das espinharas.

A rua era descaçada e poeirenta. Invetaram ainda, não levando em consideração a insalubridade daquela rua, seja pelo comércio ali praticado seja pelo abandono da rodagem, em construir um colégio municipal bem dentro do Rói Couro, que por anos permaneceu fechado exibindo apenas um placa já desgastada e enferrujada onde lia-se: PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO". Certa vez o Jornalista Hélio Zenaide questionou se aquele colégio serviria para educar as raparigas ou deseducar as crianças².

Foi aquela a última vez que o povo de Pombal permitiu que aquela corpo, agora já sem alma, entrasse na Igreja. Na verdade ela e sua profissão forem sempre tema para os sermões moralista do Padre Gualberto. Agora , ironicamente, é ele quem vai recomendar a alma de um corpo que muito serviu aos homens de Pombal, para um descanso eterno.

Assim Pombal enterrou a sua última grande chefe do Rói Couro.

Nota1: .O nome surgiu nos anos sessenta, em alusão a grande quantidade de doenças venéreas ali encontrada( Roer o Couro). Mais tarde, sabendo que Aurélio Buarque de Holanda fazia pesquisas para atualizar o seu Dicionário, o bancário e escrito José Bezerra Filho enviou o termo ao mestre, o que fez com que o mesmo constasse, já na edição seguinte, onde pode ser encontrado da seguinte forma:

Rói-Couro. (De roer+couro; var. de rói coiro) S.M Bra. PB. Pop. Rua ou bairro onde se localizar o meretrício; zona.(Pl: rói couros) Aurélio 24ª ed. Nova Fronteira Pág. 1244.

NOTA 2 "Logo à entrada da cidade, à margem da estrada, a gente avista um grupo escolar. E um grupo como outro qualquer; só com uma diferença: vive fechado. Há uma placa bem vistosa: PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Deve ser algum plano inclinado. O grupo foi muito mal localizado, bem à margem da estrada, recebendo toda a poeira do mundo. Além do mais, está colocado no centro do cabaré da cidade, É misturar crianças com raparigas. Não acredito que melhore as crianças nem que converta as raparigas."(Hélio Zenaide )

 

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