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A cavalhada na Pedra do Reino

 

Como manda a tradição no sertão pernambucano, no último domingo de maio, dia 29, uma multidão amontou-se aos pés da Pedra Bonita, para homenagear o Mito de El Rei, D.Sebastião. Doze pares de cavaleiros enfileirados e de lança em punho fizeram as honras para receber a corte de do rei que se tornou lenda em todo o nordeste. O cenário é a Pedra do Reino, dois monólitos gigantescos e pontudos perdidos na imensidão da caatinga. São José do Belmonte, município onde D. Sebastião é homenageado todos os anos, está situado a 479 quilômetros do Recife.

Havia mais de 10 anos que um grupo de 15 moradores de São José do Belmonte decidiu se juntar para fundar a Associação Cultural Pedra do Reino. Três anos depois, eles realizavam a primeira cavalgada com a participação de 60 cavaleiros. Hoje a Associação tem 40 membros e espera reunir na próxima cavalgada cerca de mil cavaleiros. A preparação do evento mobiliza a cidade durante quase todo o ano. Os moradores já perceberam que ele é o caminho para resgatar o passado, recontando uma história marcante e sangrenta que ocorreu no século passado, na Serra do Catolé.O cortejo de caveiros montados é acompanhado por milhares de devotos em caminhões, automóveis, motocicletas e a pé.

Os moradores confeccionam roupas especiais para o evento. As ruas da cidade recebem decoração. As casas se transformam em pousadas. Na praça principal, acontecem os shows musicais. A Casa da Cultura e o Memorial Pedra do Reino, que ajudam a contar a história da festa e da cidade, ficam abertos para visitas.

É na tarde do sábado que os cavaleiros começam a entrar em cena. A cavalhada - onde o desafio consiste em acertar com uma lança a argola que está pendurada num ferro - reúne 24 deles, representando os doze pares de França. Os cavaleiros trajam roupas azuis e encarnadas, como os cordões de pastoril.

Para montar a cavalhada, e também a cavalgada, os membros da Associação buscaram inspiração no Romance A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, considerada uma das mais importantes obras da literatura brasileira.
Na madrugada do domingo, os cavaleiros voltam à praça da cidade. Começam a chegar antes do nascer do sol, por volta das 4 horas. Centenas deles. Na alvorada, fogos de artifício e tiros de bacamarteiros. Homens e também algumas mulheres recebem a benção do padre de São José do Belmonte antes de iniciar a cavalgada. Muita gente acorda cedo para assistir ao ritual sertanejo.

Os cavaleiros levam cerca de seis horas para percorrer os 30 quilômetros entre o centro da cidade e as pedras da Serra do Catolé. Há uma parada para o café da manhã. No sítio histórico onde estão localizadas as Pedras do Reino, há mais espaço para celebração, menos para festas. Durante a missa campal, um coral de vozes sertanejas alterna músicas religiosas com a Cantiga de D. Sebastião.

Os acontecimentos que inspiraram a criação da Cavalgada de São José do Belmonte não saíram apenas de obras de ficção. Eles ocorreram na vida real no ano de 1838. O beato João Antônio dos Santos inciou o culto do Sebastianismo no Sertão de Pernambuco. Ele garantia ter sonhado com Dom Sebastião - Rei de Portugal que desapareceu durante a batalha do Alcácer-Quibir, travada entre mouros e portugueses.

Segundo João Antônio, o Rei aparecia no seu sonho dizendo que ressuscitaria para instalar um reino de justiça, liberdade e prosperidade, onde os pobres ficariam ricos e os pretos renasceriam brancos. Dizia ainda que, para o Rei desencantar, era preciso lavar com sangue as duas enormes pedras da Serra do Catolé. As pedras têm 30 e 33 metros de altura. O beato acabou sendo expulso da região.
O Movimento Sebastianista foi retomado pelo cunhado de Antônio, João Ferreira. Ele conseguiu levar milhares de fiéis para a Serra. Afirmando ser o enviado de D. Sebastião, João determinou o sacrifício de 80 pessoas, que foram lançadas do alto da pedra.

 

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