Caminho das Pedras: o Geoturismo no Agreste Pernambucano.
publicado em 14/01/2012 às 16:47
Ao iniciar esta palestra, sobre o Potencial Geoturístico do Nordeste do Brasil, uma questão que deve ser considerada é a vastidão do tema diante da imensidão territorial da Região Nordeste. São 1,6 milhões de Km² compartimentados em 4 sub-regiões: Litoral, Agreste, Sertão e Meio Norte. Nesse imenso espaço territorial vive uma população de 40 milhões de habitantes, cuja principal característica são os diferentes modos de viver em função da diversidade natural e cultural regional.
No que concerne à atividade turística, existe uma concentração das ações, recursos e empreendimentos na região litorânea, não obstante a inestimável potencialidade das áreas interioranas. Desde sua estruturação em nível de planejamento, que remonta aos idos de 1960, o turismo no Brasil tem priorizado os investimentos em infra-estrutura, equipamentos, serviços e marketing, notadamente, nos espaços litorâneos. Contudo, os planos estratégicos e ações governamentais não alcançaram os objetivos amplamente divulgados nos meios de comunicação, sobretudo no que diz respeito à geração de emprego e benefícios diretos para a população receptora. Devido a superexploração dos recursos naturais litorâneos, há um comprometimento dos principais atrativos geomorfológicos costeiros, como as praias, dunas e falésias, em razão da ocupação desordenada e construção de grandes hotéis, comprometendo a paisagem natural e impedindo ou dificultando a circulação de pescadores, banhistas e turistas.
Mesmo considerando que o Nordeste é detentor do mais extenso litoral brasileiro, com 3.300 quilômetros de praias, correspondendo a 45% da costa do Brasil, os níveis de degradação são alarmantes. Muitas praias, antes ditas paradisíacas, sofrem hoje com o abandono em função dos impactos ambientais evidenciados pelo comprometimento da qualidade da água, acúmulo de lixo e poluição visual ocasionado pelas edificações.
Como foi dito anteriormente, devido à grande extensão territorial da Região Nordeste, vamos tomar como objeto de análise o Domínio do Sertão, incluindo não somente o Polígono das Secas, mas também algumas áreas limítrofes, como a Agreste, os pediplanos semi-úmidos, o Meio-Norte e as áreas de exceção, como os pés-de-serra e os brejos de altitude, estes denominados no Ceará de serras úmidas. Por definição, muitos desses locais, em função da exuberância paisagística e diversidade cultural, constituem lugares turísticos.
O Agreste corresponde a uma unidade da paisagem pertencente ao Planalto da Borborema, situada entre o litoral úmido e sertão semi-árido. Situado entre o Bioma Mata Atlântica e o Bioma Caatinga, o Agreste possui espécies botânicas e faunísticas de ambos os ecossistemas. Os aspectos naturais, geoambientais e culturais tornaram o Agreste uma importante zona turística no interior nordestino. Segundo Boullón (2002), a zona turística possui superfície variável e corresponde à estruturação de um espaço turístico intermunicipal de um país. Por conseguinte, as zonas turísticas compreendem espaços geográficos no interior do Nordeste que apresentam belezas cênicas extraordinárias, evidenciadas nas formações estruturais e formas esculturais do relevo, em cujas proximidades habitam comunidades especiais do ponto de vista cultural tradicional. Essas macrounidades da paisagem podem atingir uma extensão de algumas centenas de quilômetros, permitindo a elas tratamento geossistêmico no planejamento ambiental e turístico.
Com superfície aproximada de 26.000 Km2, o Planalto da Borborema é o grande destaque na paisagem nordestina. A Borborema está situada na região oriental do Nordeste brasileiro, estendendo-se pelos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Ab’ Saber (1969) referiu-se à Borborema como um maciço em abóbada de estrutura irregularmente amarrotada, decorrente de uma intensa atuação tectônica seguida pela reativação dos dobramentos, que foram acompanhados pela formação de fraturas e falhas, além de sucessivos aplainamentos, denominados pediplanos. Nesta estrutura, movimentos tectônicos, litologias variadas e processos de erosão diferencial originaram relevos residuais, com superfícies superiores às circundantes. Ações intempéricas atuando sobre os afloramentos rochosos, associados a agentes endógenos, provocaram a formação de feições geológicas e geomorfológicas bizarras, expostas na superfície terrestre, e que constituem recursos turísticos de grande valor.
Nas escarpas orientais da Borborema o relevo é fortemente ondulado, constituindo serras e vales revestidos de manto vegetal transicional, sendo comum o consórcio de espécies arbóreas da Mata Atlântica, com arbustos e bromélias da Caatinga. Nas vertentes ocidentais da Borborema, extensas áreas deprimidas foram esculpidas nas superfícies sertanejas pediplanadas. No interior das depressões despontam relevos residuais isolados, destacando na paisagem semi-árida os inselbergues, serrotes e pães-de-açúcar. Um dos grandes exemplos desse cenário no Brasil é representado pela Depressão de Patos, na Paraíba. É importante salientar que feições raras de arcos em rochas graníticas, bastante comuns em rochas sedimentares a exemplo dos arenitos, são encontradas em algumas localidades do sertão nordestino. Um magnífico exemplo de morfoescultura em arco granítico é a Pedra Furada, no município e Venturosa, em Pernambuco.
As diferenças litológicas contribuem na gênese de diferentes feições geomorfológicas, como as formas piramidais, os dorsos de paquiderme, os batólitos e os morros monoclinais. Diques quatzíticos exumados, mediante processos erosivos que atuam no rebaixamento das rochas adjacentes mais friáveis, evidenciam as cristas quartzíticas, formas residuais que se destacam com grande imponência na paisagem sertaneja (Seabra, 2004). Os boqueirões originam-se a partir do corte aprofundado, através da superimposição dos rios, de imensas lápides rochosas outrora embutidas constituindo os diques intrudidos, e posteriormente exumadas através da erosão diferencial. Os boqueirões são grandiosas perfurações rochosas muitas vezes emparedadas com concreto para a construção de barragens e formação dos açudes sertanejos. Eles constituem monumentos naturais excepcionais de extraordinário potencial turístico, a exemplo do Boqueirão do Juru, na Serra do Teixeira, Estado da Paraíba. As cavernas são atrativos turísticos bastante procurados pelos turistas, sendo uma das principais motivações do ecoturismo na Chapada Diamantina e São Desidério, na Bahia (Seabra, 1991, 2000).
Tanto o Agreste como o Sertão semi-árido, são pontuados de ilhas úmidas, denominadas brejos de altitude, formas residuais e isoladas de relevo que brotam na superfície dos pediplanos, sobretudo na fachada oriental do Planalto da Borborema. Os brejos de altitude resultam de processos erosivos intensos que provocaram o rebaixamento da superfície estrutural, restando testemunhos elevados, cuja exposição aos ventos de leste originou os oásis sertanejos, onde a água é abundante, os solos ricos e profundos e a vegetação exuberante. Nessas áreas elevadas o espaço rural é fragmentado por inúmeros sítios policultores, voltados para a produção de flores, frutas, hortaliças, cana e fabrico de cachaça e rapadura nos engenhos centenários.
Os brejos de altitude constituem atualmente importantes destinos turísticos, como Guaramiranga (CE) Serra do Martins e Parelhas (RN), Serra do Teixeira (PB), Triunfo, Gravatá, Bezerros, Belo Jardim e Brejo da Madre de Deus (PE).
O geoturismo é uma derivação do ecoturismo com ênfase nas morfoesculturas do relevo, incluindo informações estruturais e morfodinâmicas da rocha. Existem roteiros turísticos implantados com objetivos ecológicos, pedagógicos e científicos no Brasil e no exterior, muitos já consagrados como destinos turísticos. É destaque no geoturismo, não apenas as feições geomorfológicas, como as já citadas formações litorâneas, mas também as cavernas e demais formas de superfície, como as montanhas, chapadas, cânions, lajedos, matacões, boqueirões, furnas e pedras furadas. Entre os destinos geoturísticos já consolidados, onde os principais atrativos são as feições rochosas relacionadas, estão a Chapada do Araripe (CE, PI, PE) e o Cânion do São Francisco (BA, SE).
Junto às esculturas rochosas é comum encontrar sítios paleontológicos e arqueológicos de grande valor histórico e cultural. Muitos desses locais são encontrados no interior nordestino e há muito tempo se tornaram importantes atrativos turísticos, como Sete Cidades e Serra da Capivara (PI), Ubajara, Quixadá e Santana do Cariri (CE), Soledade (RN), Pedra da Boca e Lajedo do Pai Mateus (PB), Serra do Catimbau (PE), Chapada Diamantina e São Desidério (BA), somente para citar alguns.
Cavernas, furnas, penhascos e rochedos são testemunhas dos ambientes de outrora, lugares onde tribos primitivas elaboravam artefatos para caça dos animais pertencentes a espécies extintas havia muito tempo. Registros rupestres deixados por comunidades da idade da pedra adornam uma infinidade de lajedos, grutas e paredões abruptos à beira dos rios sertanejos. Os cursos d´água da região semi-árida permanecem secos na maior parte do ano. Na estação das chuvas, os rios transbordam, despertando a vida animal em todos os recantos do sertão.
Sem pretender esgotar nesta proposta todo o potencial contido nas vastidões do Sertão Nordestino, selecionamos algumas das áreas como exemplos ilustrativos de projetos geoturísticos exitosos, e que possuem fluxo turístico regular. Os registros de natureza física, social e cultural aqui apresentados estão intrinsecamente associados à nossa experiência com a análise geográfica da paisagem sertaneja, cujos métodos de pesquisa permitem identificar e caracterizar o lugar na sua mais autêntica representatividade. A valoração turística dos recônditos lugares sertanejos, sendo o principal atrativo as esculturas rochosas, apresenta resultados econômicos bastante satisfatórios, quando nos referimos à população que local que passa a obter ganhos diretos e indiretos através da inserção no sistema turístico.
Nos espaços contíguos aos monumentos geológicos são encontrados grupos especiais que mantêm acesa a chama da cultura, encontrada nas pequenas cidades, vilas, povoados e propriedades rurais. Além das formações rochosas, são elementos importantes do circuito turístico, as pequenas cidades, vilas e povoados sertanejos, onde as feiras livres, os festejos, as comidas típicas e o artesanato podem ser transformados em produtos turísticos, quando devidamente planejados. As feições paisagísticas do sertão nordestino, com características próprias e singulares, são atrativos para o desenvolvimento do turismo exótico e suas modalidades alternativas, tendo como suporte referencial a identidade cultural local.
Geoturismo e planejamento participativo
O turismo quando planejado segundo o modelo estrutural sistêmico (Beni, 1998), cuja sustentação se dá através dos elementos naturais, sócio-econômicos e culturais regionais e locais, tem seus custos de implantação e de manutenção sensivelmente reduzidos. A integração dos componentes geossistêmicos naturais, econômicos e culturais incentiva a inserção de novos serviços e produtos na economia local, impulsiona a cadeia produtiva e promove a elevação do padrão de vida da comunidade residente.
O aproveitamento das capacidades produtivas básicas causa impacto positivo na economia regional, norteando a sustentabilidade local e evitando a implantação de grandes projetos turísticos. Por outro lado, as grandes empresas de turismo que operam nas pequenas localidades monopolizam e capitalizam todos os seus benefícios, restando muito pouco ou quase nada para os moradores. As grandes operadoras e redes hoteleiras são incentivadas através das diretrizes e ações do planejamento oficial. Os planos estratégicos governamentais vinculam-se às regras do modelo econômico concentrador de capital, menosprezando o desenvolvimento regional sustentável.
O turismo devidamente planejado e estruturado favorece o desenvolvimento da economia local e regional. Marion e Farell (1998) enfatizam que essa atividade promove uma maior integração entre muitos objetivos conflitantes, como proteção de recursos naturais e culturais, fornecimento de atividades recreativas e geração de benefícios econômicos.
Em geral, locais com planejamento desenvolvido cuidadosamente e com a participação da comunidade local alcançam mais sucesso em termos de satisfação por parte dos visitantes, benefícios econômicos e mínimos impactos negativos sobre o local (Timothy, 1998). Assim, quando os residentes participam de todas as fases de planejamento e implantação do projeto turístico, aumenta as possibilidades de melhoria dos seus padrões econômicos, a qualidade de vida, o nível educacional, sem o comprometimento do patrimônio natural e cultural. No planejamento participativo, cada comunidade deve identificar seus próprios objetivos, desejos e atividades que refletem a realidade vivida. Sem a participação dos residentes nas diversas fases de planejamento e execução do plano turístico, aumentam as chances de prejuízos econômicos potenciais e perda da identidade cultural causados pela imposição dos padrões econômicos globais.
Para o planejamento turístico, a fenomenologia auxilia na compreensão do espaço vivido, este de importância preponderante na busca identidade do lugar e de sua vocação turística. Entre outros fatores, a realidade social contém uma dimensão estética, e a Geografia cumpre o papel de compreender o imaginário contido nessa realidade, através da abordagem humanística (Lencioni, 1999). A preocupação do espaço vivido coloca no centro a análise do lugar, porque é no lugar que se distingue o modo de vida dos povos. Portanto, o treinamento e a capacitação da mão-de-obra devem obedecer o contexto social reinante no lugar, priorizando-se os indivíduos que estão fora do mercado de trabalho e gerando oportunidade de renda para as famílias. Para tanto, é oportuno o respeito aos hábitos culturais, adequando-os e inserindo-os como atividades de entretenimento ao turista.
É de fundamental importância o incentivo ao associativismo para estruturação e oferta de serviços e produtos destinados ao turista, como guias, peças de vestuário, artesanato e culinária regional. Quando organizados em associações, os moradores dinamizam a operacionalidade dos serviços, de maneira a facilitar a comercialização e escoamento da produção local. Exemplos como esses são observados em Santana do Cariri e Nova Olinda (CE); Serra da Capivara e Sete Cidades (PI); Conceição das Creoulas e Ouricuri (PE); Chapada Diamantina (BA), entre outros.
A elaboração dos roteiros depende significativamente das considerações abordadas, porque é a partir delas que se obtém o traçado das rotas integradas aos locais turísticos. Os roteiros devem contemplar não somente os monumentos geológicos e geomorfológicos, mas também outros atrativos situados em toda a zona turística, para que os benefícios atinjam o maior número de pessoas. A partir do inventário e diagnóstico é elaborado o calendário de atrativos para a zona turística incluindo-se os locais e produtos turísticos, eventos e festejos municipais.
Os locais geoturísticos, os produtos da terra e os bens imateriais presentes no imaginário popular são então transformados em peças publicitárias para divulgação e captação da demanda, obedecendo-se a capacidade de suporte para que não ocasione escassez dos produtos, e a conseqüente elevação dos preços, e nem o estress do turista. Vale salientar, contudo, que qualquer projeto turístico pode obter êxito na medida em que são considerados os fatores endógenos e exógenos do desenvolvimento, de forma a valorizar a dinâmica sócio-econômica e cultural do lugar, mediante a mobilização integral da população local.
Referências
AB’SABER, A. N. Um Conceito de Geomorfologia a Serviço das Pesquisas sobre o Quaternário. Geomorfologia (18). São Paulo: IGUSP, 1969.
BENI, Mário Carlos. Análise estrutural do turismo. São Paulo: Senac, 1998.
BOULLÓN, R. C. Planejamento do espaço turístico. Bauru: EDUSC, 2002.
LENCIONI, S. Região e Geografia. São Paulo: EDUSP, 1999.
MARION, N. M. & FARELL, B. C. A tale of tourism in two cities. Annals of Tourism Research, 20 (336-353). London, 1998.
SEABRA, G. F. Estudo Geomorfológico da Região Cárstica de Andaraí: uma contribuição à conservação de cavernas. Dissertação de Mestrado em Geografia Física. Recife: CFCH / UFPE, 1991.
____________________. Do Garimpo aos Ecos do Turismo: o Parque Nacional da Chapada Diamantina. Tese de Doutorado. São Paulo: FFLCH / USP, 1998.
____________________. Ecos do Turismo: o turismo ecológico em áreas protegidas. Campinas: Papirus, 2001.
____________________. O turismo ecológico de base geológica no Agreste Pernambucano. Relatório de Pós-Doutorado. Recife: Departamento de Geologia / CTG / UFPE, 2004.
TIMOTHY, D. J. Cooperative tourism planning in a developing destination. Journal of sustainable tourism. V. 6, n. 1. London, 1998.

